14.7.08

Uma laranja, meia laranja.

Vinha com a minha avó ontem de carro para Lisboa. Tão querida, não se importa nada de andar num carrinho sem ar-condicionado e que, verdade seja dita, é quase um carro a pedais de tão devagar que anda.
Estávamos a falar de namoricos e casamentos, numa fase em que estes últimos abundam cada vez mais, tanto na minha família como fora dela, quando a minha avó partilha comigo a visão dela do amor. Diz-me que Deus, lá em cima, parte milhares de laranjas ao meio e atira todas as metades ao calhas cá para baixo. E que nos cabe a nós, meras metades de Vitamina C, encontrar a nossa metade certa.
Podia ajudar termos sido cortados, cada laranja, com uma faca com uma serrilha diferente, tornava tudo mais fácil. Ora encaixa ora não encaixa, percebe-se logo e não se perde tempo com a metade errada.
Mas acho que faz parte que assim não seja e faz parte que cometamos erros atrás de erros.

Não sei se eu pessoalmente vejo bem assim as coisas. Mas também acho que, até encontrarmos a nossa metade certa, faz parte não acreditar nesta teoria porque as probabilidades à partida parecem baixíssimas.
Ainda assim, tenho que ter em conta a opinião de uma pessoa com um bocadinho mais de experiência nesta área do que eu.

De qualquer forma, e acho que é isso que tenho tido dificuldade em explicar, não sei até que ponto é que devemos andar à procura da laranja-metade.
Eu, para ser sincera, não ando.
Se penso nela? Evidentemente, espero que faça parte do meu futuro. Mas também sei, acho, sinto, que saberei quando a encontrar.
Não acho que seja uma metade qualquer, que seja algo que eu consiga forçar.
Não acho que olhe para alguém e pense “Sim senhor, tu serias uma metade fantástica. Gomos do tamanho certo, nível de acidez semelhante ao meu, casca no mesmo tom, quantidade de concentração de sumo absolutamente compatível. Vou investir nisto apesar de nem te achar grande graça e quem sabe um dia não me apaixono por ti e fazemos uma bonita laranja inteira?”.

Não.
Não consigo explicar as centenas de razões pelas quais isto não faz sentido.
I'm sorry...

Em primeiro lugar, sendo fria e dura, que é coisa que não sou, se não estamos apaixonados neste momento, querida laranjinha, é porque o mais certo é nunca virmos a estar.
Depois, e falando da tal solidez que supostamente se alcança quando tudo o resto faz sentido menos essa dita paixoneta, pura e simplesmente não é uma prioridade para mim.
O que é que me interessa a solidez de uma relação quando o que procuro é alguma coisa que me tire os pés do chão de felicidade?
Aliás, porquê supor que a próxima metade de laranja a aparecer na minha vida vai já ser a metade ideal? E porquê supor que já deveria estar a procurar a última metade? E se não estiver?

O que quero dizer é que não, no fundo nem sou uma pessoa muito exigente. Até dou por mim a estabelecer critérios muito elevados (literalmente) e a ignorá-los totalmente quando chega a hora da verdade.

Mas se é para aparecer alguém na minha vida, se é para por sequer a hipótese de existir alguém em quem eu queira pensar mais do que o normal, então aí, há um mínimo que eu exijo.

E esse mínimo não é nada mais, nada menos, do que o estômago aos saltos quando o telefone toca, estar nervosa antes de cada encontro, contar os minutos até já poder voltar a telefonar sem parecer ridícula de mais.
É ficar obcecada com a roupa, com o que fica bem e com o que fica mal a achar que cada pormenor conta. É passar dias inteiros a construir sonhos na minha cabeça e passar as noites a vivê-los na minha imaginação.
Esse mínimo é estar apaixonada sem pensar no futuro, se vai correr bem, se vai resultar, só porque naquele momento tudo parece possível mesmo que seja tão evidente que não o é. É ter a solidez do futuro como última prioridade possível na minha vida.

É tão simples. Talvez seja pedir de mais mas ainda vou ficar à espera disso um dia.
Até lá, prefiro viver apaixonada por tudo o resto na minha vida. E eu sei que é deprimentemente positivo da minha parte dizer isto, mas até estou.

Porque esse tal mínimo, essa tal condição quase insignificante, neste momento não existe. Sabemo-lo muito bem! Porquê forçar?
(É uma pergunta retórica não preciso de resposta.)

1 comentário:

Anónimo disse...

Que querida que é a avó! Nao sabia que pensava assim!!!
e pq que é que te lembraste desse titulo??? és de mais!
adorote primi beijao da pi