Se há viagens que não valem a pena, que são inúteis ou desnecessárias, há outras que apesar de inúteis e enervantes acabam por valer a pena.
Foi como esta viagem a Lisboa à hora de almoço. Nada mais enervante, perceber que fiquei com o cartão do Sporting do meu irmão e que ele precisa dele para ir hoje ao jogo. Enervante sobretudo porque já estive com ele várias vezes desde que eu fui ao jogo e cheguei a casa decidida a escrever um texto inteiro em inglês de rajada.
20 minutos ir até Lisboa.
20 minutos voltar até ao fim do mundo, à esquerda.
15 minutos almoçar.
5 minutos para toda a logística de entrar e sair dos sítios.
Mas acabou por ser perfeito. Sobretudo a viagem para cá.
A banalidade da viagem até Lisboa e do almoço a correr acabou por ser compensada por uma viagem de sonho de Lisboa até Tires.
Pela auto-estrada, com as duas janelas abertas como se fosse Verão, para compensar a torreira que estava dentro do Pudim, com música aos altos berros e eu a cantar ainda mais alto. Como se fosse um dia de Verão e eu fosse a caminho da praia.
O cabelo bem preso para não me vir para a cara, o Pudim armado em mau e a dar o que de Ferrari há em si, andando a 140km/h, o meu rádio novo que até parece que toca melhor que o anterior.
E eu baixo a pala do sol e vejo-me ao espelho. Um hábito tipicamente feminino que, de tão piroso que é, até é quase razão de vergonha. Vejo-me ao espelho e penso: “Isto sou eu, sem tirar nem pôr.” A maquilhagem hoje ficou em casa, tenho um olho inflamado de tanta coisa que tem sido aplicada à sua volta. A minha pele está naquele tom maravilhoso que só ganha quando o sol lhe está a bater e, do nada, chego à conclusão que não mudaria nada na minha vida, na minha pessoa.
Sem máscaras, sem vergonhas, sem ninguém ao meu lado para me julgar. Era só eu. Eu e o Pudim. Ou o Pudim e eu, mas isso é um hábito que já se perdeu e eu já sou a única pessoa abaixo dos 50 anos que ainda põe o “eu” no fim das frases.
E hoje até me sinto mais eu que o normal porque passados 4 meses a emagrecer calmamente e ao ritmo natural do meu corpo, decidi que estava farta de esperar e que hoje é um óptimo dia para começar uma dieta. Mas também claro que quando cheguei ao restaurante para almoçar e tinha que escolher o prato do dia, em vez de pescada com legumes escolhi canelones de espinafres… Just me. Tão eu.
Claro que me arrependi logo.
Até fui em remorsos e de consciência muito pesada até ao carro mas, felizmente, a viagem correu tão bem que me esqueci rapidamente.
Enquanto vinha de franja ao vento, a reparar em como estava um dia lindo de morrer, dei por mim a lembrar-me do meu salto de pára-quedas. Deve ter sido num dia como o de hoje. Com vontade de ser um dia perfeito de Verão mas encaixado na época errada do ano.
E cheguei à conclusão que não quero nunca deixar de ser aquela pessoa que saltou de um avião sem olhar para trás. Não quero deixar de ser eu. Não quero deixar de cantar sozinha no carro a pensar que se alguém conhecido me visse eu iria morrer de vergonha mas a saber que a pessoa que um dia se apaixonar por mim me vai adorar por eu ser assim.
Não quero ter que crescer já tudo de uma vez. Só porque tenho tido mais responsabilidade, mais peso do que o que tinha há um ano atrás. Não me quero transformar já numa pessoa que de tão adulta que é, deixou de ser o que de melhor tinha.
Nem agora, nem nunca.
13.3.08
this is it. just me.
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