É engraçado, porque há um atrás eu tinha uma agenda e agora, que penso bem nisso, nem me lembro de que cor era. Lembro-me que fiz uma birra tremenda para a ter.
Sempre na esperança inútil de voltar a ter uma agenda como a que tinha tido uns anos antes, provavelmente no meu primeiro ano ou segundo do curso, que me acompanhava para todo o lado e que quase fazia parte de mim. Um bocadinho como o que dizem desses miúdos agora com os seus telemóveis que são extensões deles próprios.
Toda a gente adorava a minha agenda. Tinha tudo colado lá, não me escapava nada, desde o mais simples bilhete de cinema até aos bilhetes de avião. Todos os trabalhos de grupo, todos os trabalhos de hospedeira, todos os anos de todos os meus amigos. Era única.
Inevitavelmente o ano acabou-se e, começando um ano novo, recebi duas agendas de sonho. Uma vinda do Brasil, trazida pela Vera, outra oferecida pelo André. Foi impossível escolher. Acabou-se a agenda na minha vida.
Mas no ano passado, início de 2007, eu decidi que queria voltar, ou pelo menos tentar a voltar ter uma agenda mítica.
Escusado será de dizer que não resultou. Há coisas que não se repetem.
Mas o que me fez lembrar agora essa agenda, que ainda está nos sacos que trouxe do meu escritório antigo e que estou apenas a adiar o tempo suficiente para os conseguir deitar integralmente fora sem lhes tocar, é a altura do ano em que estavamos há um ano.
Nem tanto o dia de amanhã, dia mítico na minha existência mas que, verdade seja dita, tive que ir ver à agenda do telemóvel que dia tinha sido o Domingo antes dos anos da minha mãe, que isto os dias do mês andavam todos meio enevoados na minha cabeça, mas mais o dia em que fazia um mês depois de amanhã, dois meses depois de amanhã.
Lembro-me de contar os Domingos.
Lembro-me de ter na minha agenda, acho que ela era cor-de-rosa, quatro Domingos depois deste Domingo que faz amanhã um ano, uma nota que dizia: um mês, sobrevivi?
E quatro Domingos depois dessa nota, tinha outra que dizia: dois meses, sobrevivi?
E eu sei que agora até pode parecer ridículo, e eu sei que a minha sobrevivência nunca esteve em causa. Mas lembro-me de pensar, de olhar em frente, e não me conseguir imaginar viva, inteira, passados um, dois ou mais meses. Nem passado uma hora, quanto mais um dia que fosse.
E agora, se ainda tivesse uma agenda, amanhã seria o dia em que diria:
um ano, sobrevivi?
E a resposta é óbvia de mais para ser escrita mas ainda me faz impressão pensar em tudo o que foi preciso para que voltasse a acreditar que era capaz de passar um minuto que seja sem pensar nesse assunto.
E na altura seria capaz de jurar que nunca chegaria esta data em que eu conseguisse passar até vários dias sem me lembrar de tudo o que se passou.
Mas, por outro lado, também me lembro de pensar que nunca iria parar de chorar. Lembro-me de achar que os soluços eram eternos.
Só chorava quando estava sozinha, no meu quarto, no meu sofá novo ao sol, onde quer que fosse. Felizmente deixavam-me estar sozinha e não me incomodavam.
Lembro-me que a cada momento em que estava sozinha me lembrava de uma altura diferente. Uma viagem, um passeio, um jantar.
Por cada coisa que me lembrava, chorava como um bebé de 3 anos até adormecer nos meus próprios soluços e nas minhas próprias lágrimas.
Nunca fiz nada para me controlar.
Sabia que por cada coisa só choraria uma vez.
E assim foi.
Chorei cada momento, cada beijo, cada abraço. Chorei tudo. Uma coisa de cada vez.
Nunca quis apressar nada, nunca quis deixar cá nada dentro para me lembrar com saudades mais tarde, nada que me pudesse atormentar ou perseguir quando eu julgava que teria esquecido.
Decidi que aquela era a época, o momento de sofrer. Que não havia ninguém que me tirasse esse direito.
Era a primeira vez na vida que me acontecia uma coisa assim e eu sabia que a única saída era mesmo pelo meio, mesmo descendo tão baixo que deixasse de ver a luz lá em cima. Ou cá em cima, dizendo melhor.
E lembro-me que o que mais confusão me fazia era a estupidez daquilo tudo. Era saber que, por uma vez na vida, me estava a acontecer uma coisa tão importante sem que sequer me tivesse sido dado a escolher se era isso que eu queria.
Era a impotência total.
A estupidez total de ter sido aquela pessoa que durante 2 anos e meio nunca, mas nem por uma vez, teve dúvidas. E eu sei, é inútil negá-lo, o quão raro isso é. Sei que isso não acontece com toda a gente. Nem sei se vai voltar a acontecer comigo, apesar de toda a gente à minha volta gostar de insistir que sabe perfeitamente que vou voltar a viver isso na minha vida.
Eu, neste momento, não sei.
Sei que sobrevivi. Que tento olhar para trás sem ódio nem rancor. Tento medir o que perdi com o que ganhei. Tento-me convencer a mim própria que na altura fez sentido abdicar de ir um ano para Paris, abdicar de voltar ao CISV ou de fazer o inter-rail dos meus sonhos.
Tento pensar que tudo teve uma razão.
Tento medir o que ganhei.
Mas agora passado um ano, acho que o que ganhei foi juízo.
E sinto que cresci mais este ano sozinha, vivi mais e diverti-me mais, vi mais do mudo e das pessoas do que naqueles dois anos e meio presa a uma realidade que afinal não tinha nada de real.
E sei que o pouco de irritação que ainda sinto quando penso que uma pessoa de quem tanto gostei se revela, afinal de contas, uma decepção a todos os níveis, é uma irritação que vai passar quando se instalar de vez esta tão aguardada indiferença total em relação ao que se passou.
Sei que há bocadinhos de irritação que já só passam quando aparecer outra pessoa que ocupe esse espaço dentro de mim.
Mas sei que a maior parte, fí-la sozinha.
E isso, era o melhor que me podia acontecer.
21.4.08
um ano: sobrevivi?
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1 comentário:
...curioso...ao ler este teu post de sobrevivência...lembrei-me tanto de mim! acho que tinha 23 aninhos na altura...uma paixão avassaladora (que ainda hoje,como dizer,tem pedacinhos de momentos muitissimo bem passados na minha memoria)...ele foi viver para a Finlândia...e lembro-me de chorar compulsivamente como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte...durante muitas semanas, meses, depois passou! Durante 5 anos nem noticias soube, não queria saber nada daquela pessoa que me magoou tanto! Um dia...recebi um telefonema de um numero esquisito ...+358....atendi! Era ele vinha passar o Natal a Portugal e gostava de beber um cafe comigo, aceitei, lembro-me de o ter visto a subir as escadas do Teatro Maria Matos que dão acesso ao loft...e de sentir borboletas no estomago! Disse para mim propria: " que parvoice, tenho 28 anos, nao posso continuar apaixonada por uma pessoa com quem nao falo à pelo menos 5 anos"...pois é mas continuava! E depois disso tive outras pessoas...mas nunca mais tinha voltado a sentir borboletas no estomago genuínas...e sinceramente não me parece que volte a sentir isso por mais ninguém!
Há coisas únicas...quase como uma impressão digital que fica gravada em nós para sempre!
Beijinho
Cris
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