Há dias que passam mais devagar, que são mais compridos.
Não que sejam melhores ou piores, só custam mais a passar que os outros.
Dão-nos mais que pensar, fazem-nos olhar para o passado e para o presente com mais força que o costume e não nos oferecem uma perspectiva de futuro tão boa quanto gostaríamos.
Hoje foi um dia desses, claro, porque só num dia assim é que uma pessoa pára pensar que foi, de facto, um dia assim.
Não que não tenha tido momentos bons, tive um almoço maravilhoso e o trabalho propriamente dito até correu bem.
Pensando bem nada correu mal. Simplesmente foi um dia lento.
Acordar atrasada e chegar ao escritório em cima da hora, com a lista de coisas para despachar antes de ir de férias a crescer em vez de diminuir. As pessoas entram pelo escritório a dentro, os telefones tocam, a campainha não para. Tudo me desconcentra.
Uma reunião importantíssima às 16h30, corre lindamente mas não vou estar cá na altura necessária, provavelmente vou perder este cliente para um colega. Outra reunião às 18h30, corre bem mas não se calam, falam e falam e só chego a casa depois das 8h.
Chego a casa e em vez de cair para o lado no sofá tenho um jantar, e depois tenho que passar o caderno de Finanças a limpo senão ainda percebo menos do que já percebi ontem na aula.
Realizar que vou faltar a quase todas as aulas de finanças... Que esta viagem acaba por ser o que eu mais quero no mundo mas que vem numa fase tão, tão inoportuna da minha vida em que tudo se acumula e eu cada vez tenho menos ar para respirar.
Queria combinar cafés, despedir-me das pessoas. Sair, estar, fazer, ler, ver televisão, ter tempo até para arranjar as unhas! Mas está tudo cheio. Todos os minutos, todos os momentos. E o tempo, em vez de passar a correr sem me deixar fazer nada, passa devagar, devagarinho, sem me deixar fazer nada à mesma mas deixando o dia de me ir embora sempre longe de mais para me deixar descansada.
E recebemos notícias que já não é suposto nos afectarem mas que ainda assim nos deixam de rastos. Compreendo que não sou assim tão forte quanto gostaria de ser e que ainda me falta lutar um bom bocado para conseguir passar por cima de coisas que me magoam.
E depois é dia 16 de Outubro. Este dia dá-me sempre que pensar, faz anos a Sofia.
Não lhe dei os parabéns, não nos falamos há 5 anos. E não nos falamos porque na minha festa de 18 anos ela disse que ia apanhar ar fresco lá fora, com mais 3 "amigas" minhas, e nunca mais voltaram. Foi incrível. Nem queria acreditar.
Nunca mais nos vimos, nunca mais nos cruzámos na rua. Nunca mais houve um telefonema, uma mensagem, um adeus. E eu decidi que, se um dia a visse na rua, nem sequer me daria ao trabalho de lhe dirigir a palavra.
E isto até faria sentido se eu contasse apenas esta parte da história, mas seria não só injusto como extremamente estúpido da minha parte. Aliás, toda esta atitude, esta decisão de não lhe falar, não passa de uma grande estupidez minha e, tenho que admitir, um sinal em como no fundo consigo ser uma pessoa mesmo pequena e egoísta.
Afinal de contas, tinha-lhe roubado o namorado uns anos antes... Dá para acreditar?
É mesmo verdade. Aliás, posso não ter lho roubado porque ele a escolheu a ela mas o que interessa é que esteve comigo e que só deixou de estar porque quis.
A vida faz-nos destas coisas, quando temos 16 anos e achamos que as nossas prioridades são mais importantes que as priorioridades de todas as outras pessoas que nos rodeiam.
E um dia mais tarde, já ele era meu namorado a sério, fui-lhe pedir desculpa, à Sofia, por a ter traído (ui! que palavra!) no passado.
A resposta dela? "Não te preocupes... eu sempre soube que ele estava a pensar em ti, isso para mim já tinha sido traição suficiente. O facto de ter acontecido alguma coisa não muda nada, não me magoa mais". Continuámos amigas. Pelo menos durante mais uns meses.
E afinal de contas, ela desculpa-me a coisa mais horrorosa que uma pessoa pode fazer a alguém, que é trair uma amizade (e era uma óptima amizade) e "roubar-lhe" a pessoa de quem ela mais gostava no mundo, e eu nem sequer lhe consigo desculpar uma coisa ridícula como ter saído de um jantar de anos no qual se sentia visivelmente desconfortável?
É terrível quando até a nós próprios nos decepcionamos.
Felizmente as pessoas mudam. Só é pena desligarem-se daquelas a quem fazia sentido mostrar essa mudança. Tenho ideia de que hoje sou uma boa amiga, pelo menos sei que seria incapaz de magoar uma pessoa de quem gosto. Mas acho que foi a vida que me ensinou isto, não há melhor lição que aquela que aprendemos com os nossos próprios erros.
A Sofia faz anos e eu não sei nada sobre ela. Que curso tirou, que rumo seguiu, onde está, onde anda, com quem anda.
Ainda assim lembro-me sempre dela dia 16 de Outubro. Acho que me vou lembrar sempre. Talvez até lhe mandasse uma mensagem de parabéns, hoje, se tivesse o número dela... Como será que ela reagiria?
Talvez ainda lhe peça a ele o número dela, acho que ficaram amigos, tal como nós somos hoje.
Talvez ainda o faça antes de passar o caderno de finanças a limpo, antes de arranjar as unhas, antes de preparar as coisas para o dia de amanhã: o trabalho, as aulas, a hora de almoço. As reuniões a meio da tarde, os prazos de entrega, os trabalhos de e-marketing que se acumulam no meu mail, nos quais tenho que participar senão tenho má nota.
Tudo.
Que dias tão compridos. Faltam anos até domingo, e não sei se são suficientes para fazer tudo o que ainda tenho que fazer até lá. E por outro lado nunca mais chega domingo...
Update: Ele também já não tem o número dela. A intenção é que conta... não posso dizer que não tentei. Parabéns à mesma.
16.10.07
Dias mais compridos
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