Pode parecer parvo ou mesmo um desperdício do tempo precioso que passo aqui na China mas a verdade é que já passa do meio-dia e ainda estou (estamos!) de pijama. Estávamos todos de rastos e a precisar de dormir e esta foi mesmo a primeira noite em que dormi como deve ser.
Até agora, as noites aqui têm sido o mais difícil.
O calor que durante o dia até é tolerável torna-se bastante mais pesado durante a noite. O ar condicionado do meu quarto faz imenso barulho e da janela não vem uma única aragem. Ainda assim, de todos os sítios do mundo inteiro para se ficar acordado com insónias, a minha cama está, de longe, no melhor de todos. Num 14º andar e num quarto redondo com as paredes de vidro, durmo com a cabeça literalmente no meio de Macau.
As luzes e os barulhos à distância não param a noite toda e é fascinante adormecer com a cabeça no meio da rua. Pelas 7h da manhã tenho que fechar os centímetros de cortinas que tinha deixado levantadas até ao nível da cabeça porque o sol abrazador aparece e aí sim, o meu quartinho com paredes de vidro transforma-se numa verdadeira sauna.
As últimas noites têm sido sempre assim. A acordar, a adormecer, a ver Macau, a ver as horas, a ir à casa-de-banho ou beber água… Sempre a contar os minutos que faltam até me poder finalmente levantar. A ouvir a minha avó acordada do outro lado do quarto mas sem querer falar com ela, porque isso seria admitir que estamos mesmo acordadas e tornaria a situação verdadeiramente insuportável.
Mas esta noite foi diferente.
Depois da loucura do dia de ontem, cheguei a casa e ainda me pus a ver um filme, para ver se ficava mesmo cansada e com sono. Factory Girl, com a Sienna Miller. Não recomendo. Deitei-me e depois de namorar as ruas de Macau durante uns minutos lá adormeci e consegui dormir até às 11h30 da manhã… porque me acordaram!
Hong Kong foi uma loucura. A cidade é linda de morrer, gigante, confusa, mais caótica mas tão, tão mais organizada que Macau. As diferenças são escandalosas e ajudam a trazer Macau ainda mais para trás. É pena ver o que se faz com uma colónia inglesa e com uma colónia portuguesa que, à partida, tinham as mesmas oportunidades para prosperar.
Os arranha-céus são todos um espanto, nunca pensei dar por mim a escolher quais os mais bonitos e quais os mais impressionantes. Subimos num funicular até ao pico de uma montanha e tivemos uma visão geral da ilha de Hong Kong, banhada por quase mais barcos que água, sempre coberta por uma neblina que mais depressa associo a poluição do que a outra coisa qualquer. Por isso mesmo, em HK estão sempre mais 2 graus que em Macau. Impressionante.
O dia, propriamente dito, não posso dizer que tenha corrido lindamente. Passámos o dia inteiro a discutir. Menos a minha avó, claro está. A verdade é que em Macau tenho feito de guia e tenho direccionado as hostes para aqui e para ali, de mapa e guia turístico na mão e tem corrido lindamente. Até já recebi um presente por causa disso.
Mas ontem não me apetecia! O que é que eu podia fazer? Não estava para aí virada! E como ainda vim para a China na condição de filha, apetecia-me um dia em que pudesse ser a menina pequenina que era guiada pelos pais, que lhe diziam para onde ir, quando ir e como ir.
Não tinha um mapa tão prático como o mapa de Macau, o guia do Lonely Planet é gigante e complexo e as páginas de mapas e mapas não ajudam em nada. E eu ainda por cima estava em dia de sonhar, o que só me torna mais apática. Aqueles dias em que acordamos (ou acordo) com um sonho qualquer óptimo na cabeça e em que me apetece ficar o dia inteiro a sonhá-lo e alhear-me da realidade.
Resultado: podia ter corrido melhor. A vida muda, os pais mudam e as viagens já são inevitavelmente diferentes das viagens que fizemos no passado. Para ver o guia já precisam de por e tirar os óculos, para escolher entre a esquerda e a direita já precisam de debater seriamente como se daí fosse depender o sucesso do resto da viagem e, assim sendo, foi uma dia confuso em que acabámos frequentemente chateados uns com os outros.
Mas não vai ser isso que vamos recordar de certeza. A cidade é um sonho e o dia acabou lindamente num bar no 4º andar do Centro Comercial mais chique e mais caro do mundo, que dava directamente para o mar e para a parte de Hong Kong que está no continente (onde tínhamos já ido durante a tarde). Depois de tomarmos um copo nesse bar moderníssimo e digno de nova edição do Lost in Translation, fomos para o Soho jantar a um restaurante Tailandês. O soho é um sonho. As ruas pequenas cheias de gente de todo o mundo, as lojinhas com coisas espectaculares mas ainda assim caras, os restaurantes em quase todas as portas, um de cada nacionalidade. O jantar foi óptimo, picante mas óptimo.
Na China transformei-me de menina esquisita numa pessoa totalmente destemida que não diz que não a nada e prova tudo o que lhe põem à frente. Não quero perder nada de nada.
Agora que paro para pensar nisso, até dou por mim a chegar à conclusão que se calhar essa transformação até já começou há uns tempos.
Concluindo, hoje é dia de ronha. Estamos por casa e vamos ficar a almoçar com o Quico e a Maria que vêm sempre almoçar a casa à hora de almoço. À tarde se calhar até vamos dar uma voltinha mas pelas 18h30 temos que estar no aeroporto da Taipa e lá vamos nós a caminho da Malásia. Apetece-me muito mesmo! Vai ser um fim-de-semana espectacular a vai ser óptimo estar mais tempo com a minha Mary. Não é Mary?
Vou aproveitar as viagens de avião de 4 horas para finalmente pegar nos livros que trouxe e ver se estudo qualquer coisa. Só de pensar nisso…
2 comentários:
Peço-lhe que dê uma olhada nos comentários sobre seu texto do dia 09 de julho, por favor. Não sei se vai gostar, mas seria bom que desse uma lida.
E não é que foi perfeito mesmo??? Sem contar com o azar do teu pai tudo correu maravilhosamente e tivémos tempo para estar verdadeiramente todos juntos - em família!!! E ao viver mais estes dias convosco (que o Quico e eu tanto preparámos e com os quais tanto sonhámos) reaprendi o valor que têm para mim e mais uma vez consciencializei que o meu casamento não só me trouxe o melhor marido do mundo como a família mais espantosa do universo. Ummm.. acho que hoje vou ter que lhe agradecer isso pela enésima vez... é que é bom dizer às pessoas as coisas boas que se sentem. Nada do que é bom deve ficar por ser dito!! Pelo menos, eu acho...
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