14.10.07

Quem diria?

Ri prestes a saltar de pára-quedas.
Évora - 13 de Outubro

Quem diria que eu iria ter coragem?
Não, calma, ainda a pensar na fase anterior. Quem diria que eu me meteria numa coisa destas? Que teria interesse, vontade?
Eu, a Ritinha que tinha medo de saltar de uma rocha com um metro de altura, porque achava que ia bater com os joelhos no chão!

Agora que já passou, as questões são muitas mais.

Quem diria que eu não ia estar nervosa nem um bocadinho?
Nunca me passou pela cabeça desistir, nunca tremi de medo nem nunca entrei em pânico. Sempre calma, acho que até ao fim evitei pensar no assunto, na aventura em que me estava a meter. Já só depois de estar há 20 minutos naquele avião do tamanho de uma caixa de fósforos, que ainda por cima parecia ter a resistência de uma caixa de fósforos, é que olhei para a Leonor e lhe perguntei, aos gritos porque estávamos a 30 cm. das hélices "o que é que nós vamos fazer???".

Sentadas uma ao lado da outra, enfiadas entre as pernas dos nossos instrutores, que estavam radiantes de terem umas meninas a quem fazer festinhas na nuca para reconfortar e que eram "as melhores passageiras que já aqui passaram hoje", demorámos cerca de meia-hora a subir os 4.000 metros de altitude, dos quais nos iriamos atirar.

Quem diria que eu me iria realmente atirar para o meio do nada?
A verdade é que não tive lá grande escolha e o momento propriamente dito não dependeu em nada de mim. Depois de me ter sentado ao colo do meu instrutor e de ele nos ter anexado um ao outro de uma forma que seria com certeza pornográfica se não estivessemos cheios de roupa, ele lá se arrastou (comigo ao colo) para a saída do avião.

Não havia nada que eu pudesse fazer senão colocar-me na posição que ele me tinha dito. Barriga para fora, braços cruzados, calcanhares a tocar na parte de baixo do avião e ele lá nos atirou para o meio de um céu azul límpido, lindo de morrer.

Quem diria que não me ia borrar totalmente e morrer logo ali?
Foi um sonho. Não há palavras.
Admito que no primeiro décimo de segundo pensei que o meu coração ia parar mas mal os nossos corpos ficaram na posição indicada (barrigas para baixo) e ele me fez sinal para eu abrir os braços, parecia que estava a viver um sonho.

Não tive qualquer noção dos 220 km/h. de velocidade a que estávamos a cair em queda livre nem tive, por um segundo que fosse, a ideia de que aquela queda pudesse não ter fim e eu fosse cair estatelada no meio do chão.

Nada.
Era tudo um grande vazio, um silêncio fantástico e uma paz única. Só eu, no meio do céu, a dar rodopios no meio do ar, durante segundos que valeram por anos e anos.

Quando o pára-quedas abriu fomos imediatamente sugados para cima a uma velocidade espantosa e a partir daí descemos devagar até ao chão, a fazer piruetas e a apanhar correntes de ar que nos mantinham a voar o máximo de tempo possível. Com o pára-quedas aberto já era possível conversar, mas não havia nada a dizer... acho que nunca gritei tantas vezes "que espectáculo!" na minha vida. Mas até naquele momento essa palavra me parecia estúpida, pequena.

Pode não ter demorado mais do que um minuto, mais durou por uma vida inteira. Parece que havia, até agora, todo um conjunto de coisas que eu sabia que sempre teria medo e parece que agora passei um obstáculo que me vai fazer ver com outros olhos os próximos desafios que possam aparecer.
Ninguém, mas ninguém mesmo, devia viver uma vida inteira sem experimentar saltar de pára-quedas.

Ri em pleno vôo

Ri já a aterrar, sã e salva

Ah! Quem diria que, aos 23 anos, eu iria acampar pela primeira vez?

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