As manhãs são, de longe, a parte mais difícil do meu dia. Acordar, ainda na minha cama e saber que por mim não saia de lá o dia inteiro. Não me mexia.
E não é que tenha sono. Não tenho!
É o pensamento, a simples ideia do que me espera. A rotina assustadora que passa invariavelmente por fazer dezenas de coisas que me revoltam.
Levanto-me como um robot e as minhas manhãs são todas iguais. Não posso ficar a dormitar porque sei que o trânsito só piora e fica impossível estacionar.
E a mota parada na garagem porque não tenho tempo de ir tratar da papelada e do seguro.
Chego sempre a horas mas ninguém dá por isso. Se chegasse atrasada já reparavam. Não que me dissessem, mas há um olhar que eu sinto quando atravesso o corredor até ao meu escritório, um olhar escrutinoso de quem pensa que realmente grande lata que ela tem, acha que é melhor que os outros aqui dentro e que pode chegar mais tarde, como se nós também não tivéssemos sono!
E a rotina de dizer bom dia, tão forçada que era preferível nem dizer nada. E hoje reparei, aqui no meu escritório do canto, que só me diziam bom dia porque tinham que passar por aqui para ir dizer bom dia ao patrão, que está mesmo em frente a mim. Hoje ele não está cá e ouvi apenas uns gritos ao longe, umas desculpas abafadas que provavelmente as deixam com a consciência apenas tranquila o suficiente para não acharem que foram mal-educadas.
E a mim pouco me importa. Prefiro nem ter que fingir, nem ter que forçar um sorriso. Sim, porque forço sempre um sorriso. E ainda bem que forço, já chega de melancolia aqui dentro sem um sorriso de vez em quando, seja ele forçado ou não. Mas a verdade é que se eu não o forçar, mais ninguém o faz. Seja sincero ou não.
E depois estou aqui sentada, no meu escritório perfeito com os meus tapetes novos, às riscas encarnadas, cor-de-laranjas e brancas, e só conto os minutos que faltam para sair daqui.
Até tenho trabalho para fazer. Aliás, estou cheia de trabalho! Mas é tão desmotivante, tão pouco gratificante, tão monótono... É um desespero.
Sinto-me mal porque sei que sou uma mimada mal agradecida. A verdade é que sempre fui, não há muito a fazer em relação a isso. E quanto mais me mimam, mais mal-agradecida sou.
Talvez não quisesse mimos. Talvez quisesse um trabalho árduo onde nem tivesse tempo para pensar nas riscas do tapete. Onde não estivesse sozinha um dia inteiro, sem ninguém falar comigo nem controlar se o trabalho que faço, o faço em 3 horas ou em 3 dias. Desde que o faça. E isso faço-o sempre.
Adorava que alguém entrasse aqui dentro, de rompante, e me desse uma descasca de todo o tamanho por me apanhar a escrever no blog. Que me dissesse a falta de respeito que é eu estar ocupada com os meus próprios pensamentos quando as pessoas à minha volta estão todas a trabalhar. Que sou paga para fazer o que me mandam e não para fazer o que eu quero. Óbvio que neste ponto eu iria dizer que me pagam miseravelmente e que tenho direito a pelo menos uns momentos do meu dia para fazer o que quero.
Enfim, dá Deus nozes a quem não tem dentes. Eu tenho uns dentes enormes e neste escritório não entram nozes porque o director é alérgico e se as comer vai directo para o hospital.
Tanta gente por aí que deve sonhar com este pequeno gabinete iluminado pelo Sol, com tempo e tempo para pensar na vida e para dedicar ao mundo ifinito da internet. Eu só queria estar mais ocupada.
8.11.07
As manhãs são o pior
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário