Se há coisa que é certa e sabida, é que eu sou uma valente chorona.
Não que chore por tudo e por nada e a verdade é que nem sequer tenho tendência para chorar quando a situação exige que eu seja forte. Basicamente choro com lamechices.
Com filmes e livros? Não, também não.
Com ataques de mimo? Sim, 100%.
Choro nas situações mais inesperadas possíveis e a verdade é que sempre foram muito frequentes. Ao ponto de quase não serem valorizadas pelos que as presenciam mas isso só gera efeitos ainda piores porque passo do choro à birra.
Normalmente, ou quase sempre mesmo, as situações que me fazem chorar não são compreendidas por mais ninguém. Talvez pela minha incapacidade total e completa de conseguir desabafar quando a situação o exige e muito provavelmente porque quando choro foi porque acumulei centenas de coisas que não partilhei ninguém, porque lá está, não consigo, de maneira que acabo por explodir pela coisa mais pequena possível, mais sem valor, mais irrelevante.
E quase todas as vezes não há nada a fazer senão ignorar-me. Já passa.
Isto de ter sido a filha mais nova e a única menina tinha que deixar algumas marcas. Ok, não sou uma mimada total e nunca tive nada que os meus irmãos não tivessem mas ao menos o direito à birra eu tinha que ter ganho.
Mas seguindo em frente.
Não tenho chorado, é esta a verdade.
Há uns tempos atrás dei por mim a pensar há quanto tempo não choraria e a verdade é que já nem me lembrava da última vez. Lembro-me de uma viagem que fiz de Sagres até Lisboa de carro, depois de um fim-de-semana maravilhoso bem passado com a Vera, em que depois de a ter deixado em casa vim a chorar até minha casa como uma perdida. Foi a última vez. Aconteceu várias vezes em 2007, dar por mim a recordar qualquer coisa que me fizesse ver como estava a ser difícil seguir em frente e chorava, chorava, chorava, como se a minha vida fosse acabar ali. Como se não houvesse, literalmente, o dia de amanhã. E nesses momentos, juro por tudo, era isso que eu sentia.
Mas essa noite, chegada de Sagres, em que chorei convulsivamente pela última vez, já foi no distante mês de Agosto.
Depois disso, não tenho ideia de isso ter voltado a acontecer.
Talvez tenha sido um grito de desespero final e tenha conseguido finalmente deitar tudo cá para fora. A partir dessa altura, tudo se foi reconstruindo e agora já nem me lembro porque é que sofri. Até tenho vergonha, e mais vergonha tenho ainda de admitir que tenho vergonha, de pensar nas razões parvas, ou na razão infinitamente ridícula, pela qual chorei.
E talvez seja por estar numa época emocionalmente calma da minha vida em que a única amostra ínfima de romance, ou coisa parecida à qual possa aproximadamente dar esse nome, é repleta de constantes "reality checks" que me acordam e me fazem ver que de romântico tem realmente muito pouco, não tenho sido invadida por ondas de sentimentos, quer positivos quer negativos, fortes o suficiente para que eu tenha vontade de chorar.
E de maneira que estava eu neste impasse de achar estranha esta fase de maturidade e serenidade, que em nada está relacionada comigo, quando tudo mudou graças a determinado pirralho de 55 centímetros que decidiu dar sinais de vida a milhares de quilómetros de distância.
Quem diria que um ser tão pequenino, com apenas 3.700Kg. e que acaba de nascer na longínqua China, me faria chorar que nem uma madalena de saudade, de felicidade, de tristeza, de pena por não estar lá?
Sempre soube que este momento ia ser difícil e sei perfeitamente que nem sempre vai ser assim, que não tarda vou ter o meu Jaime nos meus braços. Mas nunca pensei que custasse tanto estar longe do meu irmão numa altura tão especial da vida dele, pelo qual ele esperou tanto. Nunca pensei que ia tanto querer saber da minha Mary que, apesar de ter lá a mãe dela, deve tanto querer partilhar tudo isto connosco.
"Costumas chorar sempre que te nascem sobrinhos?"
Esta foi a pergunta genialmente desprovida de qualquer tipo de consciência que me fez uma das pessoas, nem me lembro quem, que estava comigo no meu novo gabinete no momento em que eu acordo para a vida, mais um desses "reality checks" que insistem em atirar-me para cima a toda a hora como se fossem baldes de água fria, e percebo que estou muito atenta a trabalhar imenso mas que ao mesmo tempo me caiem lágrimas e lágrimas pela cara abaixo por estar algures no meio do deserto, ou em Tires, em vez de estar na China com o meu quarto, adorado, lindo de morrer, sobrinho.
E a isto acrescenta-se o facto de eu ter lido um estudo do New Yorker, na semana passada, que dizia que as mulheres que usam maquilhagem são mais bem pagas, têm melhores trabalhos e são mais rapidamente promovidas que aquelas que não usam. Logo, querendo eu alcançar tudo isso e portanto estando eu relativamente maquilhada, o facto de estar a chorar não era, como se calcula, um espectáculo bonito de se ver.
"Não. Só choro quando eles não nascem em Portugal". Disse eu, tentando não ser bruta mas sendo e pensando para comigo própria que se ele tivesse, de facto, nascido em Portugal, já eu estava a caminho do Hospital dentro do meu Pudinzão.
13.1.08
Jaime
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1 comentário:
Deixa-me adivinhar? Estás sem escrever nada no blog há quase 10 dias e estavas a ver até onde ía isto de ninguém refilar! lool vê lá se escreves aí um testamento daqueles!
beijos
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