Fase estranha.
Não posso dizer que esteja tudo perfeito, mas também é difícil de explicar aquilo que não está. Tenho medo de ser eu que estou a ficar exigente de mais, que esteja a perder a noção daquilo a que tenho direito para ser feliz, ou não.
Acho que tendo em consideração que o meu trabalho era a minha principal prioridade neste momento da minha vida e que eu já sabia que ia influenciar tudo o resto, assim sendo está tudo perfeito. Às mil maravilhas.
Dou o meu melhor e acho que isso se tem visto e tem sido apreciado. Felizmente trabalho com pessoas que conseguem demonstrar, de uma maneira ou de outra e nem sempre explicitamente, que estão satisfeitas com o meu desempenho.
Mas isso não tem sido suficiente.
De um dia para o outro, a motivação em tudo o resto na minha vida já não é a mesma. Quer comigo, com os meus cuidados comigo própria, com as aulas onde não me consigo concentrar, com o meu quarto cor-de-rosa que está todo desarrumado...
É sobretudo a maneira como tenho feito tudo à última da hora e dando apenas o suficiente de mim própria em tudo aquilo em que toco para sentir que não estou a falhar. Mas isso para mim não é suficiente, porque sei que sou mais que isso, que consigo tão melhor.
Mas tenho andado decepcionada, desmotivada.
E tenho que admitir que acho que o que me desmotiva são as pessoas que me rodeiam no meu dia-a-dia.
Eu sei que é só trabalho e que são só aulas, não são pessoas de quem eu tenha que exigir nada ou de quem tenha que esperar determinados comportamentos ou atitudes mas, como ingénua que sou, se calhar acabo mesmo por esperar. E não consigo evitá-lo.
De uma forma estranha, sinto que o meu quotidiano é rodeado de pessoas que não me conhecem minimamente. Não sabem nada sobre mim, quem sou, o que quero, para onde quero ir.
E não é que eu não faça por isso, mas no fundo também reparo que quando começo a falar mais do que um minuto seguido consigo olhar para elas e ver-lhes no olhar, por um milésimo de segundo que seja, que não lhes interessa. Que eu não interesso. Sou só uma colega, não sou uma peça-chave das suas vidas cheias de amigos e famílias que já lá estavam antes e que vão continuar lá depois, que o que quer que seja que me está a sair da boca a mil à hora, porque falo sempre rápido de mais para quem quer que seja que está à minha volta, não tem relevância nenhuma e não passa de uma canseira.
E depois é aquele olhar que se segue sempre que sou simpática, aquele olhar de quem tem a certeza absoluta que sou uma tonta. Tenho tanta, mas tanta certeza de que as pessoas que actualmente fazem parte do meu dia-a-dia me acham uma parvinha, uma tonta, uma querida e ingénua.
E olham para mim e falam comigo e é como se nem falassem português. É como se me conseguisse dissociar de mim própria e olhar para elas a falarem comigo e fico parva com as coisas que me dizem. Páro e penso: "O que é que será que ando a dizer, que tipo de pessoa será que sou, para acharem que esta conversa me interessa?".
Falamos de roupa e recomendam-me coisas que nunca vestiria, falamos de música e associam-me a estilos que nunca me disseram nada. Vêm rapazes e decidem que vão ser o meu futuro namorado, quando a última coisa que me passa pela cabeça é que o meu futuro namorado me seja apontado pelo dedo de alguém que não sabe nada, mas nada sobre mim.
E se calhar a culpa é minha, se calhar faço por isso, por mostrar uma pessoa que é menos do que é. Mas é tão, tão enervante.
E mais enervante é sentir que naquilo que eu me empenho para tentar mostrar aquilo que sou, sou recompensada com uma barreira constante de distanciamento e de frieza.
E é tão desesperante darmos a pessoas que mal conhecemos uma parte boa de nós e recebermos em troca desconfiança ou mesmo superioridade.
Vejo isso em toda a gente à minha volta.
Toda a gente.
Pessoas que dão menos de si do que têm para dar. Pessoas que têm medo de ser simpáticas de mais com medo que isso resulte nalgum compromisso estranho do qual não consigam sair mais tarde.
Que canseira que deve ser ter que medir com tanto rigor uma relação que à partida se poderia criar com tanta facilidade.
Que canseira que deve ser viver na ilusão de que eu não percebo essas atitudes e que sou uma tonta qualquer que cai perfeitamente na história do "isto correu mesmo bem durante uns dias, deixa-me cá afastar durante um ou dois não vá a miúda ficar com esperanças e depois está tudo estragado porque tenho que aturá-la".
Chega de tanta canseira! De tanta ilusão, de tanto esforço, de tanto orgulho.
É desmotivante!
Assim como é desmotivante ver pessoas a dizerem mal umas das outras nas costas, a não ajudarem os outros só porque não são melhores amigos ou porque não vão receber nada em troca. Mas se são elas as primeiras a virar as costas quando se tenta conhecê-las melhor, qual o critério para não passar a pertencer imediatamente ao grupo dos excluídos e gozados?
E apesar de ter sorte e de, pelo menos em relação às pessoas com quem me dou, não me sentir nem excluída nem gozada, tenho que admitir que tantas atitudes negativas me desmotivam e me influenciam.
Tanto cansaço, tanto stress, tantas dores, tantos incómodos com pessoas que nem conhecemos, tantos comentários sobre coisas que não nos dizem respeito. Mas sobre nós, sobre coisas que poderíamos partilhar, coisas sobre as quais já temos o direito de falar e deveríamos ter o interesse de querer ouvir, sobre nós já não dizemos nada. Não vá haver a obrigação no futuro, num dia em que estejamos de mau humor, de ter que fazer um sorriso a uma pessoa que no fundo só se senta na mesa ao lado da nossa, que não passa de um colega.
E eu, lá está, uma tonta, não me consigo adaptar a estas relações de gente adulta que são mais falsas que sinceras e mais planeadas que uma peça de teatro.
Não têm nada a ver comigo e não percebo como é que as pessoas crescem para se tornarem assim.
E como tonta que sou, vivo na ilusão de que comigo será sempre diferente. Agarro-me se calhar a bocadinhos de relações que vou criando com pessoas que até me parecem passíveis de se virem a tornar mais próximas de mim, pessoas com as quais até me poderia identificar, apenas para depois perceber que isso nunca irá acontecer. Que aquela janelinha de proximidade que até pareceu surgir, durante apenas dois segundinhos, pelo canto de um olhar, se fechou tão depressa quanto se abriu.
Que pena que é. É a única coisa em que consigo pensar.
E sim, isso deita-me abaixo.
Porque nem sempre estamos no nosso melhor, nem sempre estamos a passar uma fase óptima connosco próprios.
E nesse momento, há sempre alguém que em tom de gozo e sem saber deita sempre um bocadinho mais abaixo.
Acho que o desesperante é chegar a passar os 5 dias da semana sem me cruzar com um amigo que olhe para mim e me consiga perguntar logo o que é que eu tenho.
Uma pessoa que seja, que me diga qualquer coisa boa, uma coisinha que seja e por muito insignificante que pareça, que me faça sorrir de cá de dentro em vez de sorrir para agradar. Que me faça ficar contente por um minuto do meu dia.
Gostava que houvesse alguém com quem me cruzasse que me fizesse ver que é parvo odiar-me. Alguém que ficasse contente com a minha chegada não porque sou a sua melhor amiga nem porque está apaixonado por mim, mas só porque é bom eu chegar. Tal como acontece em casa, tal como acontece com os nossos amigos.
Mas não. É tudo tão frio. As pessoas são tão frias.
Um elogio, uma palavra simpática, é tudo tão difícil. Quando no fundo até um comentário sobre o tempo seria suficiente, desde que eu visse que era uma tentativa de conversar comigo, de me fazer falar.
Mas não, nem uma tentativa se vê.
E eu puxo conversas aqui e ali, porque ficar calada para mim é difícil. As tentativas, da minha parte, nunca faltam. Mas é tão raro levarem a algum lado, a uma troca de mais do que 7 palavrinhas puxadas a saca-rolhas.
E os temas de conversa, por muito variados que sejam pelos meus esforços inúteis de mostrar que até posso ser uma pessoa interessante, acabam sempre no mesmo. Que falo muito depressa, escrevo muito depressa, trabalho muito depressa. Tenho que me acalmar porque sou uma pessoa muito rápida. E que sou uma criança, claro está. Devia ter vergonha na cara quando sorrio a dizer que nasci em 1984. E que tenho caracóis quando não estico o cabelo e tenho o cabelo liso quando o estico.
E se calhar é assim que é ser adulto. Se calhar faz parte, desligarmo-nos das pessoas com quem convivemos e darmos apenas aquilo de nós que nos é exigido socialmente, sem tirar nem por. Estranhamente, para mim é difícil. Não consigo não perguntar pelos filhos gémeos de 6 anos, pelo cão que não pára de largar pêlo, pela bolha que cresce no meio da perna, pelas entrevistas de novos empregos.
E é invevitável ficar triste, ou se calhar até decepcionada, quando das pessoas pelas quais passo a saber tudo porque gostam de ter alguém que as oiça, recebo um interesse tão vago e tão nulo sobre o que quer que seja que me diga respeito que quase me faz pensar se faria alguma diferença se eu fosse um diário de papel em vez de uma simples miúda que parece que gira mais rápido que a terra.
Enfim, o que vale é que quando chegam estes dias que nos dão mais que pensar há sempre aqueles momentos ao fim do dia em que uma ida ao Mac a falar sobre baratas e ratos parece que salvam o mês e mesmo as trocas de e-mails sobre os assuntos mais horríveis possíveis que me possam passar pela cabeça (e que me possam fazer ser despedida se forem descobertos) fazem-me sorrir no meio de pilhas de trabalho acumulado.
E isso ajuda sempre.
É bom não precisar de dizer a ninguém que hoje é um dia em que estou um bocadinho em baixo, porque esse é um assunto que já morreu há muito tempo e pelo qual já ninguém tem interesse. É bom bastar ir dar uma volta e ver finalmente um sorriso sincero para saber que não faz mal, nada disto interessa. O fim-de-semana está quase a chegar.
Em relação ao resto, acho que me resta crescer e começar a aprender como é a vida no mundo real. Não esperar de ninguém nada que não nos queiram dar e fazer força para conseguir continuar a dar de mim o mesmo que sempre dei sem me chatear por não receber o mesmo em troca.
Por algum lado se tem que começar... porque não eu?
6.3.08
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4 comentários:
Nota: as pessoas não podem ser despedidas pelos e-mails que enviam. Mesmo a chamar nomes aos bosses.
Quanto ao resto do teu post, depois falamos. Podes não querer, mas falamos à mesma.
Julguei que o teu comentário fosse mais do género do "também gostei de ir ao mac!". Mas pronto. :P
Se visses os mails se calhar repensavas isso... não esquecer que o e-mail da empresa é propriedade da empresa e eu estou a quebrar a regra número 1: receber mails pessoais!
Mas fomos ao mac?
hahahaha tou a brincar, gostei muito! Estava mesmo a precisar de espairecer!
Ah sim andei feita criança a mostrar o teu presente à família toda!
Minha querida! Que bom sermos ingenuas, tontas, palermas!! Nem parece teu achar que o normal é a frieza e o automatismo empresarial em que se vive! Temos de preservar a criança que há em nós! Sabes o qe eu digo ao pw quando ele diz que estou a ser pita?! "Os homens gostam!" hehe não deixes de continuar a melhorar-te porque se há pessoa que eu sei que o faz és tu, e se tentasses mudar esse teu lado tão teu, os teus maneirismos que te definem, então estarias a piorar! Não és tu que estás mal, são eles.. Continua a ser assim, porque são estas as pessoas que se destacam! Em relação ao que disses-te sobre seres exigente, claro que és, ainda bem! É tão normal, estabeleces-te objectivos que estão cumpridos, agora tens necessidade de estabelecer outros porque continuas a crescer interiormente e a querer novos desafios, é perfeitamente normal, e claro que ha dias optimos e dias que só me apetece pegar numa arma e matar tudo à minha volta hehe
Que mails? lool
Muits beijinhos!
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