2.11.07

Os últimos momentos

Sempre tive um sério problema com saber dar uma resposta exacta quando me perguntam qual o meu tipo de música preferida. Em primeiro lugar nunca gostei do mesmo tipo de música que as meninas da minha idade deviam gostar e por outro, ainda pior, sempre odiei que as meninas da minha idade ouvissem as mesmas músicas que eu porque depois as cantavam imenso e lhes tiravam o significado especial que eu lhes tinha atríbuido.
Ainda assim, adoro música. Não me parece, no entanto, que se algum dia realmente me desse ao trabalho de elaborar uma resposta coerente sobre o tipo de música que mais gosto, coisa que seria complicada e bastante improvável, eu fosse dizer que o meu tipo de música favorito seria a música clássica.
Não, não me parece sequer que essa ideia me surgisse.
Não sou conhecedora, não sei o nome das músicas, não consigo associar uma música ao seu compositor, quanto mais ao seu nome!
Ainda assim, devo admitir que a música clássica cresceu dentro de mim. Ou melhor, eu cresci com ela. Todos os dias, pela hora de jantar, o meu pai escolhia um CD para ouvirmos. Fazia parte do ritual maravilhoso que eram estes jantares cá em casa, em que ainda eramos invariavelmente 5 ou 6 à mesa e em que os jantares duravam sempre para cima de uma hora. Mais de uma hora, todos os dias, a ouvir música clássica. De Beethoven a Chopin, de Mozart a outro qualquer cujo nome não me ocorre neste momento.
Sempre que ouvimos um instrumento diferente, o meu pai diz-me sempre: "Rita, devias aprender a tocar piano!", "Rita, devias apender a tocar saxofone!", "Rita, devias aprender a cantar ópera!".
Escusado será de dizer que a única coisa que eventualmente aprendi a tocar foi flauta e que mesmo assim já só sei tocar o Hino da Alegria.

Mas a verdade é que o concerto de Maria João Pires a que fomos assistir em Macau foi absolutamente mágico. De uma forma inexplicável, aquelas músicas estavam cá dentro. Se tivessem letras, eu saberia cantá-las de cor.
Foi um sonho ver aquele um grupo tão grande de pessoas a conseguirem coordenar-se e fazerem-me reviver anos e anos vividos na minha sala de Algés, aqueles jantares à mesa onde o assunto não faltava, onde se contavam os dias passados e se discutiam as vezes de arrumar a cozinha e levantar a mesa.
O momento, só assim, já seria mágico o suficiente. E por isso mesmo é difícil de explicar o que senti quando, ainda por cima, senti o meu adorado adorado sobrinho Jaime, ainda dentro de uma barriga constantemente crescente, a dar sinais de vida e a mostrar que também ele estava a adorar a música e a sentir o quão maravilhoso aquele momento estava a ser!

Disseram-me entretanto que a Maria João Pires é uma pessoa insuportável, antipática e anti-social. Fiquei chateada, gosto imenso de gostar das pessoas e fico sempre triste quando me tiram isso de mim. Fazem-me sempre isso. Se acho que alguém é bom actor, ele é gay. Se a Judite Sousa era óptima professora, era drogada. Se a Maria João Pires toca piano de forma absolutamente inacreditável, então é porque é mal-educada e arrogante. Mete-me pena. Acho que nunca vou conseguir idolatrar ninguém. Vem sempre alguém por trás, muito feliz, desfazer-me as minhas ilusões, rebentando-as muito rapidamente como quem fura um balão com uma grande agulha de tricot.

Voltando à minha viagem pelo Oriente. Nesse mesmo dia do concerto tivemos o tal almoço. É uma refeição chamada Yam-Cha, que em chinês significa beber chá. Para eles é apenas um pequeno-almoço durante o qual se bebe essa bebida à qual me forcei a tolerar durante esta viagem, apenas para não lhe voltar a tocar tão cedo. Mas a comida é tanta, mas tanta, que a refeição foi adaptada ao almoço ou jantar para os meros ocidentais que não percebem nada daquilo. Gostava de conseguir explicar o que comemos mas seria impossível porque me esqueci do nome de tudo no momento em que ele saía da boca de quem mo dizia.
Sei dizer que foi maravilhoso, num restaurante fantástico no casino Wynn. A comida era tão, mas tão deliciosa que vou com certeza ficar a sonhar com ela durante muito tempo.

Durante a tarde demos mais umas voltas e visitámos os pontos de culturais de Macau que ainda faltavam para depois irmos para casa para nos prepararmos para o concerto. Depois do concerto fomos novamente a um restaurante tailandês, ao qual toda a gente gosta de chamar Bangkoke, apesar de ele ter um nome bem mais complexo do qual também já me esqueci.

O último dia (ontem) foi passado a acabar as últimas compras e a tentar enfiar tudo dentro das malas. Almoçámos ainda com o Quico e a Mary num restaurante italiano muito simpático mesmo no centro de Macau e no final do dia eles foram-nos levar ao ferry para o início de uma viagem de regresso que eu ainda nem acredito que acabou.

Não consigo explicar as saudades que já sinto, o bom que foi, o difícil que vai ser não estar presente quando nascer aquele bebé que eu já sei que é tão, tão querido e ainda nem o vi fora da sua barriguinha.
Também não consigo agradecer o suficiente por tudo isto. Por esta viagem maravilhosa, pelos mimos todos, por nos terem feito sentir em casa e nos terem mostrado o quanto gostaram da nossa visita.
Quem me dera voltar já daqui a um mês.

2 comentários:

Anónimo disse...

Antes de sequer imaginares ou ponderares ou sonhares em voltar para Macau daqui a um mês....importas-te de perguntar às tuas amigas se vão ter saudades tuas??? ;-)

Adoro ler o que escreves...é como se tivesses a falar ....cada palavra é tua... quem te conhece, quem te ouve,percebe o estou a querer dizer...

Beijinhos
Verinha

Ri disse...

Escusado será de dizer a importância que isso tem para mim... :)