5.9.07

Ler - Uma ligeira crítica dura e fria

Hoje passei a manhã num evento, mais um lançamento de mais uma linha de cosmética, desta vez dedicada aos homens. Como o evento era organizado por nós passo sempre por aqueles momentos constrangedores em que apesar de me apetecer ficar a olhar para a paisagem (o evento era num barco) tenho que desempenhar relativamente o papel de anfitriã e conversar sobre qualquer coisa.
Rapidamente se acaba o assunto dos barcos, das docas e de Lisboa e suas paisagens e passámos para aquele silêncio constrangedor, sentadas à mesa, em que ainda não se decidiu que assunto se vai abordar.

Eramos 4 mulheres, se já me incluirem nessa categoria, e felizmente uma delas decidiu abordar o tema dos livros.
Que ideia maravilhosa! Resulta sempre, desde que estejamos perto de adultos. Se não estivermos o mais certo é a conversa acabar passado 5 minutos.
Falámos durante horas, comentámos livros que lemos em comum, apontámos recomendações essenciais e combinámos mesmo umas trocas num futuro próximo. Foi excelente. Foi uma óptima manhã a falar sobre um tema interessante com pessoas com as quais tinha, finalmente, algo em comum. Mesmo sem as conhecer. Mesmo sabendo que o mais provável é não chegarmos mesmo a trocar livros.

Não digo que isto seja uma característica exclusiva dos adultos, até porque felizmente conheço algumas excepções da minha idade.
Mas, ainda assim, não posso deixar de sentir uma pena terrível por ver um dos melhores hábitos que existem a cair totalmente em desuso.
E porquê?
Simplesmente porque lhe puseram uma etiqueta que diz: é uma seca.
E pronto. Assim como disseram que a matemática era horrível e todos os miúdos entram no liceu logo a chumbar, sem sequer tentarem, também ler é cada vez mais visto como uma obrigação horrorosa que só é útil através de um computador ou de um telemóvel.

E isso mete imensa pena.
Não mete tanta pena quanto me mete pena o facto de as pessoas que não lêm terem pena de mim, por ler, mas ainda assim, mete pena.
E mete pena porque não percebem o que perdem. As viagens que não fazem, os universos que não descobrem. Até a imaginação que têm e que não sabem que têm, só porque não a exercitam.

E vêm filmes que duram uma hora e meia. E adoram esses filmes e dizem que os filmes os marcam imenso. Mas calma, o filme só durou uma hora e meia e foi-lhes posto à frente, já com a papinha toda feita!
Enquanto que ler um livro nos leva na mesma viagem mas muito, muito mais longe. Com muito mais pormenores. Ainda por cima, ao ler o livro, podemos escolher à vontade a cara das personagens, podemos pintar as paisagens com as nossas cores favoritas.
Acima de tudo, é uma experiência que dura. Seja 3 dias, seja 4 semanas, é uma história que acompanhamos e que, inevitavelmente, passa a acompanhar determinada época da nossa vida. Porque está presente, porque associamos ao que nos rodeia, porque lhe dedicamos momentos que não dedicamos a mais nada.

E acho que é isso que torna a leitura tão complicada aos olhos dos que não lêm. Os momentos que se "perdem", em que paramos e não fazemos mais nada.
Uma seca.

E, assim sendo, é tão raro poder conversar com alguém sobre o que lemos, sobre as pessoas que conhecemos e que adorávamos encontrar na rua, apesar de não existirem. Sobre os filmes que esperamos ardentemente que alguém se lembre de fazer porque precisamos desesperadamente de ver aquele beijo ao vivo.
É raro conseguir explicar como vivo numa aflição constante de não ter tempo para ler tudo o que quero ler.
Todos os livros novos que saiem e que acho que devem ser fantásticos, mas sem deixar para trás todos os grandes clássicos que são obrigatórios e que transformaram a maneira de pensar de milhões de pessoas.

Por onde começar?
Por romances históricos que me levam a viajar pelo passado, para épocas tão remotas que nem acredito que tenham existido? Ou por romances fantásticos onde a magia me transporta para outro universo? Ou, ainda, romances tão parecidos com a realidade que podiam acontecer aqui ao lado? Crimes, paixões, amores perdidos e voltados a encontrar... Impossível escolher.
E em que língua?
Se foi escrito em inglês, ora vamos ler em inglês... Mas e se não for? Terei coragem de começar a ler em francês, finalmente? E em espanhol, agora que descobri que me dou tão bem com a língua?

Tenho um sonho desde sempre e não, não sou doida varrida porque já imensa gente me disse que adorava que lhe acontecesse o mesmo.
Adorava estar, um dia, numa livraria qualquer, por exemplo na Fnac e de repente soava um alarme e diziam qualquer coisa do género: "Há o perigo de estarem todos infectados com um vírus (mas no fundo não estávamos, claro, só que não se sabia), e vão ter que ficar 2 semanas fechados na Fnac em quarentena."

Era o ideal. Livros e mais livros e todo o tempo do mundo para me poder afundar neles sem nada que me interrompesse.
Sem já serem 14h e ter que voltar para o trabalho. Sem os olhos se fecharem de sono, à noite. Sem ter que estudar. Sem os olhares parvos das pessoas que me dizem constantemente "és louca!".

Porque não sou, juro. Loucos são os que acham que dedicar mais do 5 minutos seguidos a uma coisa que exija o mínimo de esforço, é um desperdício de tempo.

Acabando a crítica, vou começar a falar aqui no blog dos livros que estou a ler. Quando achar que estes justifiquem tal publicidade, é claro.
Sei que quem gosta de ler vai gostar e quem sabe, talvez, ainda consiga incentivar alguma alma perdida e preguiçosa.
O Físico, de Noah Gordon.

No outro dia perguntaram-me sobre o que é que era o livro e eu disse que ainda não sabia. Foi um daqueles livros que a minha mãe me recomendou e que eu sabia que ia adorar, mas não gosto de ler a parte de trás dos livros e ainda desconhecia totalmente o conteúdo.
Só sabia que se passava em Inglaterra no sec. X e estava a achar estranho. Estranho porque normalmente tenho tópicos preferidos em dada altura e digo coisas como, por exemplo: "Mãe, queria ler qualquer coisa sobre a 2ª Guerra Mundial" e ela lá me recomenda o que acha melhor.
Era evidente que este livro não podia vir a ser sobre a 2ª Guerra Mundial, senão teria cerca 402998342 páginas para saltar 10 séculos e, por isso, estava a estranhar o início porque já li a minha quota parte de Inglaterra.

E a verdade é que o início era uma grande seca.
Só continuei a ler porque sempre que tirava o livro em alguma ocasião alguém me dizia imediatamente: "Bem! Esse livro é um espectáculo! Não estás a adorar?". E eu encolhia os ombros e continuava a ler.
E ainda bem que continuei, já me lembro relativamente do assunto que devo ter pedido para ler.
O livro passa-se na Pérsia antiga e é fascinante conhecer o mundo como ele era antes do actual Iraque, Irão e companhias.
Uma verdadeira viagem aos mundos do Sindbad, o Marinheiro que fala do esforço de um inglês que quer ser médico (físico) à força toda e que para isso se vê forçado a ir para a única escola de físicos do mundo, que é na Pérsia. Claro que, para isso, teve que renunciar à sua religião e aos seus hábitos de Cristão Europeu e fazer uma longa viagem cheia de romances e aventuras que lhe durou cerca de um ano e meio.

O livro ainda não acabou e eu conto ao pormenor os minutos que faltam para lhe poder voltar a pegar e devorar mais umas quantas páginas da vida alucinante do Rob na cidade de Ispahan.

Recomenda-se!

8 comentários:

Vera Leitão disse...

Boa critica.. percebo tudo o que dizes e choca me mm no que as pessoas se estão a tornar! Claro que percebo a perguiça de se ler visto que sou muito perguiçosa mas quando começon um livro mais nada interessa, tenho um mundo á parte e toca a devora-lo nao va ele fugir do nada! sabes o que é que me custa mais quando leio um livro? acaba-lo.. ler as últimas palavras como se fosse o fim do mundo, aliás é mm o fim daquele mundo que eu criei.
Beijinhos babe
PS: ainda não recuperei do fim do meu mundo mágico.. foram anos e chegou ao fim!

Ri disse...

Estou há uns tempos para abordar esse tema mas ainda não sei por que ponta lhe pegar, sabes?
Também ainda não recuperei... Ao menos ainda temos o conforto de nos faltam 2 filmes para ver, porque quando já nem isso existir... nem sei!

Vera Leitão disse...

sei sim senhora.. é tão complicado!para começar os filmes nc teem nd a ver, so os vou ver pla curiosidade de saber como é que pegaram nisto ou naquilo, mas o fim já sabemos... quando abordares avisa porque preciso de ler isso refundida no meu quarto para poder chorar lol
não te perguntei, choraste em alguma cena neste livro?

Ri disse...

Não me parece... Acho que não, mesmo. Então no fim, se tivesse chorado, terias visto porque estavas ao meu lado!
Mas eu não choro muito com livros e filmes, choro mais facilmente porque fiz uma nódoa na roupa num dia em que por acaso já se acabou o gás a meio do banho, a mota não pega e o meu cabelo está monstro.
Ou seja, choro mais frequentemente por pequenas insignificâncias. Hoje não é um dia desses, felizmente.

Vera Leitão disse...

lol eu não achei o fim a coisa mais emocionante do mundo (ao ponto de chorar claro) mas houve ali algumas partes em que a lágrima chegou ao canto do olho lol ai olha nem sei!
depois discutimos o assunto!

Anónimo disse...

Pois é Ritinha!! E fico mt feliz por saber q o q dizes pode ser dirigido a mts, mas n mim:) hehe

Cheguei agr do museu da electricidade e vim ver o teu blog!!

É por este esforço teu em mostrar aos q n lêem, um cheirinho do infindavel mundo da leitura q estão a perder, que amanhã vais passar em Carcavelos p me emprestares o "Sun of the Shadows" q eu ja acabei de ler o primeiro!! e estou viciada!!

Obrigada por me teres dado a conhecer esta trilogia que eu n sonhava existir e pela qual me apaixonei!!

Beijinhos Krida:)

Unknown disse...

Bem aqui está o fruto de quem lê muito e à muito tempo.. sabes escrever lindamente e lemos as tuas colunas como se fosse a parte emocionante de um livro, gostava de ser assim tb :) parabens primini
Há algum tempo que nao me consigo concentrar para ler livros inteiros.. ainda estou no fim do que o patife me deu (em fevereiro) e queria acabar mas é uma seca.. mas sim tb queria ler tantos livros e tou a deixar passar este tempo sem ler nada.. e dp vou-me arrepender vou-me lembrar da tua critica! preciso urgentemente de voltar a deixar de comer ou ficar aflita de fazer xixi p ler mais um capitulo que saudadesssss.. nao ha nada melhor!!!
beijao
gosto muito de ti
e acima de tudo admiro-te muito:)
madalena

Anónimo disse...

Bom lá vai outra vez!

Ritinha sei que vais achar estranho eu estar a comentar este texto. Logo eu que ainda nem sequer comentei a nossa foto do Porto! Mas olha por coincidência ou não, hoje li este teu texto do princípio ao fim (já tinha lido um parte) e quando acabei, fechei o blogue e fui pegar no jornal Metro. Notícia em destaque: "Portugueses estão a ler mais" Grande notícia para ti, vais ter mais gente com quem conversar sobre livros lol!

A notícia diz o seguinte:
- "5% é o número de não leitores em Portugal(...)" (Muito bom)
- "83% dos inquiridos referem que preferem ler jotnais,73% optam pelas revistas e 57% elegem os livros (Nada mau)

O estudo diz ainda:
"Portugal registou um aumento de intresse pela leitura nos mais jovens, embora ainda esteja longe do que se verifica nos outros países da União Europeia"

e

"(...) são os jovens e as mulheres que lêem mais livros (...)"

Já viste ainda há esperança e pode ser que daqui a uns tempos escrevas outra critica mais positiva e não tão "dura e fria".
Muitos beijinhos
Mat

Ps: O estudo chama-se "A leitura em Portugal" e foi realizado pelo Observatório das Actividades Culturais(OAC).
Ensinaram-nos que é sempre importantes referir estas informações!