15.6.07

Mini-saia e mega decote

Nunca pensei que encontrar trabalho pudesse ser uma aventura tão empolgante. Na verdade sempre procurei não me preocupar muito com esse assunto, sempre achei que era uma questão de atitude. Uma pessoa que chega ao mercado de trabalho com aquela atitude de vencido e a pensar que sim, que vai passar o resto da sua vida em sofrimento total por não poder comprar aquela casa, aquele carro, ir para aquelas férias, é aquela pessoa que de facto não vai mesmo conseguir alcançar nada disso.
E isso não se reflecte apenas no trabalho. É a nossa atitude que define o rumo que a nossa vida toma, não tenho a mais pequena dúvida. Não digo que não haja condicionantes externas que nos influnciem, claro que há e muitas vezes até são mais fortes que qualquer atitude positiva que possamos ter. Ainda assim, a maneira como enfrentamos o mundo define a maneira como o mundo nos enfrenta a nós, o mundo e todos aqueles que lá estão.

E portanto, seguindo esta linha de pensamento, achei que muito rápido ia ter um emprego de sonho e ser super-super-realizada. Qual não é a minha surpresa quando, apenas uns meses depois de acabar o meu curso, isso não aconteceu!
Tinha duas hipóteses para interpretar esta situação. A primeira dizia-me que o emprego em que estou agora é uma alavanca para um futuro promissor e que o que tenho que fazer é esfolar-me a trabalhar, sonhar com o dia em que vou ser aumentada, ser uma bajuladora de primeira totalmente dedicada ao trabalho e sem qualquer tipo de vida pessoal. Esta era a hipótese que vinha na continuação do tal pensamento que se eu acreditar muito nisto, é isto que vai acontecer.
Aparentamente, era a melhor hipótese! Aliás durante uns tempos até me pareceu a única viável. Verdade seja dita a obcessão é um vício muito fácil no qual uma pessoa se pode afundar e muito rapidamente deixamos de conseguir ver o que quer que seja sem ser o que está à nossa frente, por muito longe que esteja. E isto também se aplica a tudo na vida, aliás até é mais provável que se aplique a outras coisas, como o amor e coisas desse género, do que a um trabalho propriamente dito.

Depois, devido a uma série de acontecimentos do foro pessoal que não são para aqui chamados, ou pelo menos não o são neste momento, levei um abanão e fui forçada a ver a vida com outros olhos. Foi aí que apareceu a segunda hipótese.
Ou seja, se eu acredito que é a minha atitude que define o rumo que a minha vida vai tomar no futuro, então e se a minha atitude, a minha postura, as minhas ambições e prioridades estivessem trocadas? E se este não fosse o momento para ambicionar o mundo mas sim para o gozar sem o peso e a responsabilidade de o ter às costas?
E se eu não levasse a vida tão a sério?

Então certo dia acordei, vi-me ao espelho e deparei-me com uma míuda de 22 anos e com a vida pela frente. 22 anos! Sou um bebé! E quero crescer e juntar dinheiro ao lado de uma pessoa que só pensa em trabalho?
Para quê?
Porquê?
De que é que me serve a ideia de um futuro feliz se o presente é uma merda e eu não tenho razão para sorrir?
De que é que me serve juntar imenso dinheiro se passo horas fechada num escritório e não dedico tempo nenhum a mim própria e às pessoas de quem gosto?

Então basicamente a atitude mudou e agora é totalmente diferente. Continuo a achar que o meu trabalho é uma alavanca para um futuro profissional promissor. Claro que continuo a sonhar com um emprego de sonho. Mas não tanto pelo dinheiro, mais porque preciso de me sentir realizada diariamente, preciso de acordar e saber que vou fazer uma coisa que gosto. Gostava de pensar que não é assim tão impossível.
Eu até gosto do que faço, como já disse ontem, mas a verdade é que o trabalho que tenho não só não me ocupa todo o tempo que tenho que estar aqui sentada como ainda por cima não me deixa totalmente satisfeita comigo própria. Sinto que não estou a aprender nada, que esta empresa já me deu tudo o que tinha a dar neste ano e meio que passou.
Então dou por mim à procura de novas oportunidades.
Sair daqui não quero, pelo menos enquanto não tiver outro emprego à minha espera. Há quase dois anos que trabalho, mesmo quando tinha que conciliar com as aulas, e o tempo livre assusta-me. Apesar de agora me apetecer ir para casa dormir a sesta enquanto vejo televisão, sei perfeitamente que se essa fosse a minha única solução para ocupar a minha tarde ia entrar em perfeito estado de paranóia. Não compreendo como é que há pessoas que conseguem não fazer nada da vida, acordar e ficar a olhar para o ar, sem qualquer tipo de obrigação, sem qualquer tipo de passatempo.
Porra o país está parado, será que não vêm isso? Tudo bem, não precisam de ganhar dinheiro e não há nada de jeito para fazer, nem sequer está tempo para ir para a praia, mas acho que uma pessoa em "idade activa" devia ter a preocupação, sentir a obrigação de contribuir minimamente para o desenvolvimento de qualquer coisa que não sei bem o que é. Só sei que não contribui de maneira nenhuma se não fizer nada, no seu dia-a-dia, que seja, mesmo que só um bocadinho, contra a sua vontade!
Com que lata é que depois diz "ah e tal não gosto nada daquele político" ou "que otária a mulher do café que se enganou a dar-me o bolo que eu pedi!". Só dá vontade de pegar no gajo pelos ombros e perguntar então e tu? Por acaso fazes alguma coisa da vida, sabes o que é trabalhar? Fazes alguma coisa ao longo do teu dia contra a tua vontade para saberes o que é estar cansado, errar? Com que cara é que tens o desplante de te dares ao luxo de criticares outras pessoas?

Bem, continuando e tentando ignorar esta minha pequena exaltação que na verdade nem é dirigida a ninguém em específico que eu nem conheço parasitas da sociedade que não façam nada e ainda por cima gritem com as mulheres dos cafés, a verdade é que decidi mudar de emprego e que desde logo assumi que fosse uma coisa muito simples, mas nem por isso.
Tendo em consideração que esta minha decisão foi tomada há coisa de um mês e tal, agora fiquei sem saber se será há ou à coisa, porque de facto é haver coisa de um mês e tal mas por outro lado fico na dúvida porque não me vem à cabeça que esta deva ser uma das situações em que eu deva aplicar o há e não o à.
Mas diria que neste mês e tal, sem há nem à, já devo ter enviado cerca de 4354135465 currículos. Por acaso é engraçado porque no outro dia estava a falar com uma amiga que também está à procura de emprego e disse-lhe uma coisa deste género, tipo que já tinha enviado 479 currículos e ela levou a sério e perguntou-me como é que eu sabia que tinha sido esse número específico. Fartei-me de rir... mas agora não tem piada.
Desses 4354135465 CV's nem todos foram parar directamente ao caixote do lixo. Já fui a 2 entrevistas, já me fizeram outras duas por telefone e amanhã tenho outra. Diria que só depois das entrevistas ou de ouvirem a minha voz é que deitaram o meu CV fora. Não percebo. Procuram pessoas da minha idade para ocupar cargos que até acho que tenho capacidade de ocupar mas depois afinal não sirvo. Haverá assim tantas pessaos recém-licenciadas com muito mais aptidões que eu? É claro que não tenho experiência! Acabei o curso há 4 meses! Sou uma criança! O que é que esperavam? Que neste pequeno intervalo de tempo que por acaso, mas só mesmo por acaso, até estou a trabalhar para ganhar experiência e não dar aquela de ser inútil, tivesse viajado até aos Estados Unidos e tivesse feito um estágio de 3 anos e meio na maior agência do prédio mais alto de Nova Iorque? Acontece que não posso viajar até aos Estados Unidos porque não me dão um emprego de jeito e eu não posso gastar dinheiro para dar a volta ao mundo e subir até prédios muito altos. De qualquer maneira não me posso queixar que já tenho viagem marcada para Macau daqui a 3 meses; pagam-me mal, mas não assim tão mal.

O que interessa aqui é que esta aventura constante do ir ou não ir a entrevistas se está a tornar uma rotina totalmente estúpida. Até já digo "ah, amanhã vou a uma entevista" como se nada fosse. Já nem me ligam. Ainda há quem pergunte onde é que é mas de resto só dizem que sim, boa, boa sorte para ti.
Devem com certeza achar que eu me devo safar mesmo muito mal porque está visto que mal me vêm escolhem outra pessoa. Ou pelo menos acho eu que escolhem porque verdade seja dita nem ninguém se dá ao trabalho de me avisar que escolheu outra pessoa, tal é a impressão que eu devo causar!
Até percebia se eu tivesse frúnculos no nariz, olhos tortos e 3 maminhas. Não que tenha alguma coisa contra pessoas com frúnculos no nariz, olhos tortos e 3 maminhas porque não tenho, sobretudo se forem raparigas. Se forem rapazes já acho estranho terem olhos tortos.
Mas na verdade até diria que tenho uma apresentação minimamente aceitável aos olhos de um profissional qualquer, ou será que os requisitos mudaram e a partir de agora só aceitam mesmo as miúdas que vão de mini-saia e com mega decotes? Adorava que isso estivesse estipulado em qualquer lado para eu saber, se estivesse e dissessem que essa era a indumentária adequada para uma entrevista de emprego, quem sabe eu não aderia?"

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