19.6.07

The Interview

Ir a entrevistas de emprego é terrível. Pelo menos as minhas têm sido, se calhar é por isso que não me dizem mais nada depois de lá ir. Mas nem estou a falar dos resultados, estou a falar do momento da chegada à empresa, da entrevista propriamente dita.

Em primeiro lugar todas as pessoas com as quais nos cruzamos nos olham de alto a baixo, como se a tirar as medidas e pensar se eu tenho o aspecto que eles procuram num futuro colega de trabalho. É que é impressionante! E aquela coisa de não dar importância às primeiras aparências? E se eu for uma pessoa tímida e tiver um ar antipático mas no fundo for uma doçura de pessoa? Não se sentem mal por me estarem já a prejudicar sem nem sequer me terem dado uma oportunidade?
Mas isso ainda se ignora, ou se ignora ou se compreende porque eu acho que faria tal e qual a mesma coisa. Ora se tenho um dia-a-dia calmo e rotineiro na minha empresa e do nada começam a entrar candidatatos para me fazerem companhia nos próximos tempos é normal que eu veja como é que eles são, não quero cá pessoas completamente estrambólicas com as quais não vou ter relação nenhuma e que não vão querer ir almoçar comigo porque não temos nada em comum sobre o que conversar. Bem já não escrevia a palavra estrambólica há tanto tempo, nem escrevia nem dizia, mas isso continuo sem dizer que lá porque a escrevi não quer dizer que a tenha dito. É mesmo daquelas palavras que se diziam quando se queria caracterizar alguém completamente estranho e diferente, mas acho que esse tipo de palavras entraram em desuso com a introdução dos palavrões no vocabulário normal, que acontece tipo aos 9 anos de idade.

Continuando, pior que os olhares das pessoas que trabalham na dita futura-possível-empresa é quando percebemos que estão a fazer entrevistas em cadeia. Uma às 5h00, outra às 5h30, outra às 6h00. E aí o constrangedor é o olhar que se troca com a candidata anterior e com a candidata seguinte quando nos cruzamos no hall de entrada. Parte de mim tem logo tendência para sorrir e dizer boa tarde mas depois há sempre aquele lado que pensa que bolas, provavelmente esta miúda vai-te roubar a tua hipótese de seres escolhida e ainda estás aqui com sorrisinhos e simpatias, prega-lhe mas é uma rasteira! Nunca passei do sorriso claro está. Na última entrevista a que fui ainda fiquei sozinha na sala de reuniões um bocado de tempo e deu para dar uma espreitadela ao CV da entrevistada anterior mas também não tive coragem de o rasgar, riscar ou roubar. Só o li, será que fiz mal? Deu para saber que as miúdas que por aí andam fazem currículos com quadradinhos em degradé do amarelo ao cor-de-laranja do lado esquerdo da folha para ficar mais bonito. Se calhar é por isso que não sou contratada, não tenho muito jeito para enfeitar uma coisa que à partida deveria ser simples e séria.

Mas, para mim, isto das entrevistas em cadeia é o que me arruina o esquema todo. Eu até acho que na altura eles gostam de mim, mas no final da entrevista dizem sempre que depois me dizem qualquer coisa, mas que ainda têm que entrevistar mais 789 condidatos porque eu fui um dos primeiros. Porque é que me põem sempre entre os primeiros?
É como os anúncios nos intervalos dos programas de televisão. Sabiam que se perguntarem a uma pessoa quais foram os anúncios que ela viu no intervalo da telenovela, tendo em consideração que ela vê um desses canais em que passam milhões de anúncios em catadupa como se alguém ainda tivesse capacidade de absorver tanta informação junta, ela só se consegue lembrar do primeiro ou segundo e depois do antepenúltimo, penúltimo e último? São âncoras de memória. No meio de várias coisas semelhantes temos tendência a recordarmo-nos daquelas que conseguimos associar a outras coisas diferentes, neste caso o início e o fim do intervalo ou as primeiras e as últimas entrevistas.
É óbvio que por muito que um entrevistador até goste de um candidato e até o ache fantástico para o cargo que está vago, se depois disso passam mais 4 dias de entrevistas em catadupa e ele já entrevistou mais 59, é normal que se esqueça da tal miúda do outro dia que até lhe pareceu, na altura, perfeita para lá ficar.

E é assim que tomo a seguinte decisão: se eu um dia estiver a entrevistar pessoas, aliás quando eu um dia estiver a entrevistar pessoas, sim porque eu ainda acho que vou ter um emprego óptimo mais tarde e que vou precisar de uma legião de humildes e fiéis súbditos para me ajudarem a fazer o meu complexo trabalho, vou adoptar a ténica da "morte-súbita". Não é assim que se chama no futebol quando há aquele golo decisivo e aquilo acaba logo ali? Tenho ideia que sim. De qualquer maneira gostei do nome e vou adoptá-lo nas minhas ténicas de recrutamento futuras, se ainda me lembrar dele quando lá chegar. Imaginemos que estou a entrevistar pessoas e que são todas umas inúteis de primeira quando de repente, milagre dos milagres, aparece-me uma pessoa que parece ter todas as características que eu procurava e que por acaso até está imediatamente disponível e radiante com a miséria que estou disposta a pagar-lhe. Morte súbita! Não da pessoa obviamente, que morta não me serve de nada. Mas das entrevistas sim. Acabam logo ali. Finito.
A pessoa que eu tinha encarregado de chamar as outras legiões de candidatos para as entrevistas seguintes liga-lhes a agradecer a disponibilidade mas a dizer que no entanto a nossa escolha já foi feita. Acho isso mais legítimo do que entrevistar as outras pessoas todas para depois nem sequer lhes dizer que não foram elas as escolhidas e ainda por cima correr o risco de ficar indecisa e me esquecer da tal miúda dos cabelos compridos, simpática e bem-educada que acabou o curso só no outro dia mas que até tem um ar de querer aprender e de ser desembaraçada, alguma experiência e ainda por cima mora mesmo aqui ao lado e não tem problemas para estacionar porque anda numa mota mesmo gira e chega sempre a horas porque de mota não se apanha trânsito.

Continuando, a entrevista de hoje foi uma excepção. E foi uma excepção porque eu hoje não fui à entrevista.
Não me apeteceu, pronto.
Não me apeteceu e estou com preguiça e estou cheia de trabalho e o trabalho está a correr bem.
Depois ainda ia e ainda me perguntavam aqui no escritório porque é que era a 19ª vez que ia ao dentista em 3 semanas, como se eu estivesse viva se fosse ao dentista 19 vezes em três semanas, acho que saía da consulta directamente para o consultório do psiquiatra e mesmo assim o trauma ia-me perseguir para sempre. Mas também não consigo inventar mais nada na altura de sair mais cedo, onde é que uma pessoa diz que vai? Ao médico? Se é assim tão evidente que eu resplandeço de saúde?
Não interessa, a verdade é que também não fui à entrevista porque esta manhã decidi ir à procura da empresa aí pela net. É impressionante como as empresas que põem anúncios e que respondem mais depressa às candidaturas nunca dizem quais são. Uma pessoa desconfia, claro que desconfia. Mas pelo endereço de e-mail, com a morada e com muita, muita paciência lá se percebe que empresa é. Neste caso nem era bem empresa, era mais agência, ou mini-agência-em-fase-inicial-de-expansão.
E não fui porque lá está, mudar para pior não me apetece. É regredir, é voltar atrás. Eu estou bem onde estou, só não nado em motivação. Por isso só mudo se vir que é uma coisa mais interessante, motivadora, engraçada. E não era o caso. Não percebo porque é que ainda assim me sinto mal por não ter ido quando já expliquei tão bem porque é que não fui. Porra. Ainda podia ir, ainda faltam 21 minutos. Mas não vou, não me apetece e tenho imenso que fazer.
Porra não é um palavrão, senão eu não dizia. Mesmo assim não digo muitas vezes, mas quando estamos a escrever e nos queremos exprimir estas palavras ajudam. Se estivesse à conversa percebia-se pela minha expressão e não precisava de ter escrito.
Mas eu achava que era um palavrão, dos piores mesmo. E como não digo palavrões não dizia porra. Mas depois conheci uma pessoa que dizia porra à frente dos pais e fiquei chocada e essa pessoa disse-me que porra não era um palavrão. Ainda discuti esse assunto umas vezes porque a verdade é que não vou dizer porra à frente dos meus pais senão levo uma sarabanda de todo o tamanho, não que eles não digam à minha frente, que dizem, não se preocupam muito com isso, eu é que tenho que ficar na linha. Acho que vai ser assim para sempre, não percebo com que idade é que já se pode começar a gritar com os pais, os meus ainda me batiam se eu gritasse com eles agora. Tenho uma tia que já tem quase 50 anos que ainda não fuma à frente dos pais. Ridículo.
Perdi-me, não me lembro porque é que abordei sequer este assunto.Faltam 16 minutos, mesmo que quisesse ir à entrevista ia chegar atrasada e ia ficar mal vista e portanto também não me iam contratar. Boa

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