1.6.07

O vazio

O que é este sentimento que às vezes se apodera de mim e me assola totalmente? Esta onda de tristeza que me deita abaixo e me dá vontade de acabar com tudo na minha vida?

Uma dor sem princípio nem fim, provavelmente até sem razão. Se tem razão, eu desconheço-a. Mas é grande, tão grande! Maior que eu. Não só me enche como me rodeia, fica à minha volta e cola-se a tudo o que vejo, tudo o que faço, tudo em que toco.

E a partir desse momento, como que tocado pela peste, tudo o que eu faço corre mal. Se escrevo, dou erros; se jogo, perco; se falo, digo asneiras.

E não há hipóteses de passar e não há maneira de fazer com que esta bola negra pare de crescer dentro do meu coração. Ela cresce e cresce, deixando-me um vazio cada vez maior cá dentro. É como um vácuo que suga tudo o que eu queria sentir, tudo o que me dá esperança num dia normal, tudo o que me alegra e faz de mim quem sou.

Normalmente passa sozinha, a depressão. Como passa não sei. Acho que me esqueço na altura em que fica tudo bem e deixo de dar importância ao assunto. Sei que vai voltar, sei que vai passar, só espero que não fique nunca. Porque sempre que estou assim, penso que não há hipótese nenhuma de algum dia me vir a sentir melhor.

Fico com esta letargia enorme, esta incapacidade de produzir o que quer que seja. Um sono tão grande que me faz sonhar e sonhar com a minha almofada (não é verdade que é só ela que sabe o que eu sinto?). Uma vontade, sim uma vontade maior que tudo, de abandonar tudo o que estou a fazer e ir dormir. Dormir e dormir, fechar os olhos e sonhar.

Sonhar com o que eu gostaria que acontecesse, sonhar com pessoas que eu gostaria que aparecessem mas que nem me falam. Sonhar com momentos, com lugares, com conversas. Com coisas que se calhar até acontecem no meu dia-a-dia se eu não me deitar e não adormecer, mas tenho tanto sono...

E sinto-me indefesa. Vulnerável. Qualquer pequeno murrinho brincalhão, sinto-o como um soco no estomâgo que me deixa de rastos. Uma vencida.

E então assola-me um medo enorme desse soco tremendo e escondo-me. Escondo-me das pessoas, escondo-me de ti e escondo-me de mim. Prefiro não falar com ninguém e não fazer nada, para que não corra tudo mal.

Uma voz cá dentro diz-me que tenho que reagir, que se me levantar e me começar a mexer isto vai passar. Eu até sei que é verdade. Sei que tenho que entrar na minha rotina, e que me descubro nos meus próprios gestos. E é aí que tudo passa!

Agora lembro-me! Tenho que continuar. Ter força e continuar.
Não posso adormecer nem confiar apenas na almofada. Tenho que me apoiar a quem me rodeia e continuar com o que me dá alento. Não ficar parada! Obrigado por me teres voltado a lembrar disto! Já consigo sorrir!

Não posso ser uma vencida, tenho tanto para dar! Tanto para ser! Só tenho que ter esperança que o futuro vai ser melhor que o presente e, até lá, ser o melhor que conseguir em cada dia que viva.

Tenho que começar por fazer os pequenos gestos automáticos que me guiam diariamente, e é no meio desses momentos que me vou esquecer das coisas que estão mal.
Beber a água às horas de beber a água (é sempre hora de beber água!), lanchar daqui a uma hora e meia e ir fazer exercício quando o dia acabar. Sair do ginásio, tomar banho e ir jantar a casa da avó. Depois? Está nas mãos da minha companhia, a ela vou confiar a minha vida.

E se a depressão voltar, até porque acho que ainda nem se foi embora, só tenho que me lembrar destes passos.
Se não os esquecer cumpro-os. Pode ser sem vontade, pode ser calada e soturna, mas tenho que os cumprir. E é sempre no meio deles que aparece alguém ou alguma coisa que me vai fazer sorrir. Seja porque o lanche estava delicioso (e está sempre delicioso), seja porque alguém foi mais simpático, seja mesmo porque consegui correr mais uns minutos que o normal!

E nesse momento vou-me esquecer deste. Vou-me esquecer da altura em que planeei o dia todo. E aí sim, vou continuar com o meu dia por ser o dia que me apetece viver e não porque marquei ao pormenor cada coisa. E aí sim, vou poder alterar os meus planos se quiser, porque sou senhora do mundo, senhora de mim e faço o que quero.

Como se me recompensasse a mim própria por estar bem.

Obrigado por me teres lembrado da cura, ainda bem que a escrevi!

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