Sentada no meu quarto cor-de-rosa, em cima da cama e de computador no colo. A cama está feita, claro, mas o quarto nem está muito arrumado. Mas hoje não faz mal.
Agora tenho-me esforçado para ser menos preocupada com esses pormenores. Normalmente nunca estaria dentro do quarto se ele não estivesse perfeito. Normalmente nunca me vestiria de preto mas com botas castanhas, como ontem à noite. Mas apeteceu-me. Apeteceu-me, de propósito, saber que não estava a condizer. Saber que estava mesmo confortável, a sentir-me bem.
E pode ter sido disso, ou não, mas a verdade é que a noite correu lindamente.
Podia, de preferência, não ter acordado 3 horas depois de ter adormecido, com a minha mãe a entrar pelo meu quarto a dentro de Beatriz ao colo, nitidamente a fazer chantagem psicológica para eu não me chatear por me estar a acordar tão cedo, e a conversar com ela a mostrar-lhe inutilidades como: "Aqui está a tia Rita em Praga, aqui está a tia Rita no casamento do tio Quico. Ah! Quem é esta aqui? É a Beatriz!! Não é? Não é?".
Depois de um curto e breve: "Sim mãe, já vou", lá me levantei directamente para uma mesa onde me puseram a comer chili... um prato ideal para quem está relativamente de ressaca.
Sim, mas nada disto interessa, não me vou por a contar ao pormenor o meu dia.
O que interessa é que estranhamente me estava a sentir mesmo feliz e apesar de me virem à cabeça 7 ou 8 razões para isso acontecer, entre elas o facto de ser Natal, ainda sentia que havia alguma coisa que me estava a escapar.
É o que dá acordar à pressa, não me deixam ficar na cama a recapitular todos os momentos da noite passada, de maneira que há coisas que se calhar só me vão surgindo com o passar do tempo. Muitas delas só surgem mesmo passados alguns dias.
Mas estava aqui sentada na minha cama cor-de-rosa, ainda sem computador em cima, quando me lembrei de determinado momento da minha noite de ontem pelo qual estava à espera há meses. Meses!
A verdade é que por muita asneira que façamos na nossa vida e por muito que essas coisas passem, por muito que tentemos esquecer e nos deixemos de dar com pessoas para sempre, há coisas que não nos largam, por mais que tentemos fugir.
E eu tinha decidido, há uns meses, que tinha que pedir desculpa a uma miúda que tinha sido minha amiga e com quem me chateei no longínquo ano de 2000. Ora até à data em que tinha decidido isso via-a habitualmente onde quer que fosse, mas simplesmente ignorávamo-nos. Óbvio que a partir do momento em que tomei a decisão e disse para mim própria (e escrevi 30 páginas sobre o assunto) que da próxima vez que a visse ia resolver esse pequeno dilema, ela nunca mais me apareceu à frente!
É inexplicável e eu sei que também não sou a melhor para encontrar pessoas porque não sou propriamente uma miúda noctívaga nem ando a saltitar de evento em evento a esbarrar em pessoas conhecidas, mas de qualquer forma era estranho.
Mas ontem, do nada, comecei a vir surgir as caras familiares das amigas dessa tal pessoa e procurei-a muito rápido e do nada um momento no qual tinha pensado imenso como sendo um momento terrível e constragedor acabou por ser um momento totalmente descontraído (abençoado seja o alcool, tenho que admitir) em que acabámos a rir às gargalhadas e a desejar Bom Natal. Portanto abençoado seja o Natal, também, que põe toda a gente neste espírito.
Não posso dizer que tenha perdido 10 toneladas de peso na consciência porque só uma pessoa muito parva é que se deixa atormentar pelos mesmos fantasmas durante 7 anos sem fazer nada por isso, mas posso dizer que sim, que se calhar tinha uma pedrinha no sapato, muito muito pequenina e à qual até já estava habituada, por estar lá há tanto tempo, que agora finalmente saiu e me deixou tão, tão mais confortável.
E acho que foi por isso que dei por mim tão contente sentada na cama cor-de-rosa, por me sentir mais confortável. Por isso e, como é óbvio, pelas outras razões todas (7 ou 8 não era?) que fazem com que este Natal esteja a ser óptimo, com que me tenha divertido imenso ontem e com que até me sinta num momento relativamente feliz da minha vida em que se calhar se pudesse mudar qualquer coisa sem ser perder misteriosamente 5 kilos sem qualquer tipo de esforço nem sofrimento nem cirurgias... se calhar não mudava nada. Só se calhar. Também não me apetece pensar muito nesse assunto senão ainda me lembrava de 3 ou 4 coisas e depois ainda acabava chateada.
Mas pronto, como me apetece escrever e como ainda não decidi se vou aqui por ou não uma das belas fotografias tiradas ontem, vou escrever 8 razões (só porque cismei neste número) pelas quais me sinto feliz hoje. Pequenas coisas, provavelmente ridículas aos olhos dos meus atentos leitores, mas que a mim me deixam contente:
1 - Agora bloqueei não me lembro de nenhuma... Já sei. Adoro o meu quarto. Este é o primeiro em muitos anos em que não tem decorações de Natal mas como este ano o meu quarto está cor-de-rosa eu pura e simplesmente não conseguiria ter enfeites de Natal porque seria o cúmulo do mau gosto. Botas castanhas com vestido cinzento, uma vez na vida, ainda vá que não vá, mas uma época natalícia inteira com o quarto encarnado e cor-de-rosa seria o fim do mundo, nunca conseguiria adormecer.
Mas o que interessa é que adoro o meu quarto, agora que finalmente já está todo arranjado depois destas obras/mudanças eternas que a minha casa sofreu.
2 - Apetece-me muito o lanchinho desta tarde.
3 - Estou de férias. Não me sinto minimamente de férias porque mesmo que estivesse a trabalhar não o estaria a fazer hoje, nem ontem, nem amanhã. Mas estou contente por saber que não tenho nada em que pensar, que posso estar a descansar e a olhar para o ar que não há problema, até mereço.
4 - Gostei da noite de ontem. Do jantar que foi cómico de mais, de conhecer pessoas novas, de ir ter com pessoas conhecidas, de estar com toda a gente que ainda por cima faz sempre uma festa enorme por me ver como se eu só saísse à noite 3 vezes por ano, quando no fundo devo sair cerca de 7. E gostei do fim da noite.
5 - Já estou a ficar sem imaginação... agora bloqueei a pensar no fim da noite. Sobretudo no momento em que chego a casa e o meu pai está a sair para ir trabalhar. E ainda por cima, como melhor pai do mundo que é, em vez de me perguntar por onde andei até às 8h30 da manhã pergunta-me apenas: "Então querida, divertiu-se?". Diverti-me. O meu pai é o melhor. Esta é uma boa razão número 5.
6 - Ser Natal. Óbvio. Esta razão é importantíssima. Estou mesmo feliz por ser Natal. Assim que voltar do meu lanche vou começar a embrulhar presentes.
7 - Não sei, não consigo dizer mais, não vou chegar às 8 razões. Estou feliz hoje e estou a adorar toda a gente à minha volta e estou totalmente embebida em espírito natalício e apetece-me desejar bom natal a toda a gente que me aparecer à frente.
Menos a minha mãe. Está chateada e não diz porquê, está a fazer birrinha comigo e a fazer género para eu lhe perguntar o que é que tem mas depois não me conta. Acredito piamente que é só porque estou no meu quarto cor-de-rosa em vez de estar na sala a fazer alguma coisa em conjunto. Diz que ando muito comunicativa, que é o telemóvel, o computador, tudo. Isto é a maneira dela de dizer que já percebeu tudo e que eu ando aí com segredinhos que não lhe quero contar. É a maneira dela de dizer que está quase a desesperar por não fazer parte de tudo e mais alguma coisa da minha vida.
E é por isso que não chego às 8 razões, porque esta agora tirou-me a vontade de continuar a pensar na minha felicidade. Vou lanchar (como se não estivesse ainda a digerir o chili).
Primi power (fiquei péssima mas eles ficaram bem)
Ri, Pi, Zé e Benny
D&D, anos do Zé
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