Arrábida - Maio 2005
Desde sempre que ir à missa com pessoas da mesma idade é um fiasco completo. Para mal dos meus avós, que sempre foram quem nos acordava em qualquer fim-de-semana ou Domingo de férias para nos arrastarem com eles, sempre houve conversas que estranhamente nunca tinham surgido antes mas que eram imprescindíveis ter naquele momento específico. Nem antes, nem depois. O burburinho sempre foi uma constante e era sempre acompanhado daqueles olhares de quem não compreende como é que se vai conversar para a missa.
E não é que se vá. Não se vai, claro que não. A missa não é para conversar. No entanto, a verdade é que momentos destes vão surgir sempre. E hoje não foi excepção. Sobretudo quando há conversas a ter, coisas que se querem saber, sorrisos furtivos que se cruzam entre primos que não se viam há quase um dia!
Que tal essa ressaca? A que horas chegaste, como foste para casa? E tu, porque é que não vieste ter connosco? Foi uma noitada... Estamos todos de rastos.
A tudo isto e a todas as outras conversas ainda relacionadas com o mesmo tema mas que não vou transcrever para o blog, não vá violar a privacidade de alguém com temas como: "Eu disse-lhe que ele tinha sido parvo em não pedir o número dela. Não lho deste?", e eu: "Sim, dei... mas olha que ela não está nada interessada digo-te já", veio acrescer ainda mais um pequeno factor de distracção, que ultimamente ocupa todos os meus pensamentos e que acho mesmo que está a subir e quase a alcançar a posição de pessoa que mais gosto em todo o mundo, sobretudo porque a minha mãe anda meio chata, que é a Beatriz.
É evidente que se vamos para uma missa, a Beatriz vem para o meu colo. Ora também é evidente que as pessoas que me rodeiam querem apertá-la, enxê-la de beijinhos, tentar fazê-la sorrir e tudo o mais que possa estar relacionado.
Até que oiço um berro, na medida em que os berros se podem dar na missa, ou seja, um sussurro quase elevado à condição de voz, a dizer que somos ridículas e que nem na missa conseguimos estar caladas. Sim, caladas, são sempre as raparigas que estão no mexerico, sobretudo quando há bebés envolvidos.
Olha o puto, pensei eu, agora já acha que manda. Até que vejo a cara dele. Está triste. Olho à minha volta e vejo como realmente, e apesar de a missa só ter começado há 5 minutos e de ainda há 10 estarmos todos lá fora a conversar animadamente, de repente está tudo triste.
Do nada há um véu horrível sobre toda a gente e até lágrimas já se vêm.
E eu não percebo, juro que não percebo, o que é que estamos a celebrar naquela missa.
Não percebo o porquê de festejar um aniversário de uma morte quando temos tanta vida à nossa volta para festejar. Não percebo porquê escolher um dia específico para nos concentrarmos nesse assunto e chorarmos, só aí, como se no dia 17 já não fosse verdade, já ninguém se lembra que o Tico morreu.
Recuso-me a celebrar uma data triste.
Recuso-me a lembrar-me do Tico no dia em que ele morreu.
Recuso-me a recordar aquele dia. Porque não me lembro. Porque é uma nuvem na minha cabeça. Porque só me lembro de estar a ver uma peça de teatro de final de liceu da então irmã do meu namorado e de a minha mãe me ligar a chorar. E juro, juro por Deus que não me lembro de mais nada. Tento pensar se fui ter com a minha mãe, com a a minha família e não me lembro.
Uma parte tão grande de mim, de todos nós, morreu naquele dia e eu recuso-me, mas recuso-me mesmo, a celebrá-lo.
Recuso-me a recordar o Tico neste dia quando há tantos outros em que faz mais sentido recordá-lo. Porque não fazer uma missa no dia de anos dele? Porque não festejar a sua vida, o que ele viveu, o que ele alcançou? Não percebo o porquê de se escolher a pior data, a única data na vida dele que foi verdadeiramente horrível, para se fazer uma missa em sua homenagem.
Ah, porque passaram 2 anos. Tudo bem, eu sei e jamais me esqueceria disso. Mas foram 22 os anos que ele esteve vivo e foram milhentas as datas de coisas boas que lhe aconteceram e que merecem mil vezes mais serem celebradas com uma missa.
Porque me recuso a recordá-lo pela sua morte e não pela sua vida.
Porque prefiro lembrar-me dele, como me lembro, nos momentos do dia-a-dia, nas fotografias que vão passando, nas conversas que vamos tendo.
Porque prefiro chorar, como tantas vezes acontece, só porque uma imagem me veio à cabeça, porque passei por um sítio especial e ele não está connosco, porque me lembro dos anos em que andámos juntos na escola ou em que jogávamos ao peão e ele tentava em vão ensinar-me a lançar o peão sozinha apesar de eu nunca ter conseguido.
(E aqui tenho que fazer um parentesis para deixar bem claro, até porque a única pessoa que me conseguia convencer do contrário já não está cá para me contradizer, que: lançar um peão é impossível. Impossível!)
Não estou a dizer que não tenha chorado hoje na missa, que não me tenha comovido, que não me tenha eventualmente calado. Que não tenha agarrado a Beatriz e a mão da Madalena com mais força porque ainda precisamos tanto de saber que estamos todos juntos, que ainda nos temos uns aos outros.
Não estou a dizer que não me tenha ido abaixo com a música que o Manel cantou, tão comovente que por momentos achei que tinha viajado no tempo para o mesmo dia de há 2 anos atrás. E isto apesar de ouvir a Benedita dizer: "Outra vez a mesma música? Ele vai cantá-la todos os anos?".
Claro que sim, claro que a missa foi linda e claro que cantaram lindamente. Claro que é lindo estarmos todos juntos, apesar de estarmos todos juntos tantas vezes e claro que faz parte de tudo isto o Gongas mandar-nos calar, a Benny resmungar com a música e ainda me dizer: "Ri, vais comungar por alma de quem??" e ser sempre o Manel a cantar e a tocar. Porque afinal de contas ainda somos nós.
Mas ainda assim não faz sentido na minha cabeça, não faz sentido só nos reunirmos para celebrar o fim. Para nos lembrarmos da única, a única coisa má que neste momento recordamos sobre o Tico.
Porque já não interessa o seu péssimo feitio quando lhe apetecia, já não interessa a sua mania obcessiva de que mais ninguém podia tocar no computador da avó sem ser ele, já não interessa nada... De qualquer forma agora também não me lembrava de mais nada mesmo que quisesse enumerar imensos defeitos. Porque se varreram da minha cabeça. Porque o que me lembro são as férias, os Verões, os fins-de-semana na Arrábida, os passeios de mota pela serra, nós em pequeninos.
E portanto foi isto que me passou pela cabeça esta noite.
Recuso-me a fazer oficialmente esta celebração do pior momento das nossas vidas. Este não é um dia para chorar, este é um dia para esquecer!
Para lembrar, para recordar, para chorar tudo o que for preciso, temos todos os outros dias da vida dele connosco.
Boa?
Update:
Pronto, cá está, um óptimo momento para chorar seria este em que tento escolher uma boa fotografia para ilustrar este texto (a esta hora a fotografia que está no início).
E existe toda uma pasta chamada TICOTICO na minha pasta de 2005, cheia de fotografias que roubei do computador de alguém já há alguns tempos.
E agora sim tenho vontade de chorar como nunca e de perguntar porquê, porquê meu Deus teve isto que acontecer? Como é que isto pode ser justo? Como é que é possível todos continuarmos a viver e nascerem bebés e casarem-se pessoas e aparecem novas pessoas nas nossas vidas quando ao Tico ninguém lhe perguntou se ele queria ir ou ficar?
Há dias em que é só isso em que eu penso, como é que eu tenho força para continuar se ainda sinto tanto, se ainda penso tanto, se ainda me dói tanto! Acho que acima de tudo é isso. É o que me dói. Porque foi injusto, porque foi mau, porque não devia ter acontecido.
E agora estou aqui, feita parva no meu quarto às 3h da manhã a fazer um anjinho para a festa de Natal à última da hora e nem sequer vai haver o anjo do Tico, ou estrela ou lá o que é que os rapazes têm que fazer. E isso não faz sentido, não faz!
Como é que se faz para passar por cima disto? Quem me dera saber o truque.
1 comentário:
Claro que vai haver uma estrela do tico tico e do avô tb!! A avó providenciou isso, qdo vires o anjo da avó repara nos braços e vais ver uma estrelinha pendurada em cada um.. sao eles!!!
Beijinhos e pegadas na areia..
Enviar um comentário