Estava a chegar a casa do cinema, já a subir a minha rua, quando me deu uma vontade súbita de não parar, de continuar a guiar.
Não foi a primeira vez, já me tinha acontecido isto esta semana mas estupidamente resisti ao desejo, estacionei e subi.
Hoje não. Hoje pensei, porque não? Ainda não é meia-noite, não tenho nada à minha espera em casa e apetece-me tanto guiar e guiar por aí fora, sempre em frente, sozinha comigo e com os meus pensamentos.
Às vezes é preciso reflectir, por as ideias em dia. Este ano foi tão estranho, por um lado passou tão depressa e por outro que durou décadas. Décadas sem fim. Já nem me lembro de Janeiro, de Fevereiro, o que é que aconteceu? Onde é que eu estava? O que é que eu fiz?
Acabou a faculdade, começou a vida a sério e ainda no outro dia tive uma discussão com as minhas amigas que se recusavam a acreditar que a viagem a Praga já tinha sido há um ano e meio. Foi este ano, diziam-me elas! Ainda nem passaram 10 meses! Meu Deus, como a minha vida mudou.
Ainda em Fevereiro estávamos em Praga a passear pelas ruas geladas de gorro e luvas, menos eu que tinha que folhear o guia e não podia ter luvas e quase perdia os meus dedos de fada. Ainda em Fevereiro me diziam que eu era uma estúpida, uma estúpida por ser tão cega ao ponto de não ver que estava a perder tempo com uma pessoa que era tão menos que eu, que era cega por não ver que merecia tão mais, que merecia ser tão mais feliz. E eu dizia que não, estão parvas?, vocês não sabem o que eu sinto, eu sei muito bem o que sinto e digo-vos, com toda a certeza, que é isto que eu quero, que é para sempre! A sério que sim, ele não me foi por ao aeroporto nem certamente me vai buscar porque tem que trabalhar, não percebem? Tudo se vai resolver quando chegarmos a Lisboa.
Que estúpida.
É assim a vida.
Mudei tanto, cresci tanto.
Nem por um dia deste longo, longo ano, fugi ao que estava a sentir. Passei por tudo de olhos bem abertos, até de braços bem abertos. Foi tudo preciso. Sofri tudo. Era a minha vez de sofrer, tinha que chegar a minha vez.
E claro que chegou ao fim, claro que tudo voltou ao normal e quando penso em 2007, estranhamente, já não me lembro desses primeiros meses do ano mas sim dos últimos. Das aventuras, das descobertas de novas e pequenas felicidades em sítios tão simples mas onde já me tinha esquecido de procurar.
A dor, a confusão, parece-me tudo tão distante.
Mas lá está, perdi-me nas minhas palavras. Não foi nada disto que me passou pela cabeça durante a minha viagem de carro até ao Guincho.
A verdade é que já não consigo parar para pensar no passado porque sinto finalmente que não deixei lá nada. É uma certeza calma que já me acompanha há uns tempos e que me faz seguir em frente tão mais leve.
Tenho agora toda a minha vida com que me entreter. E tenho esta necessidade enorme de deixar tudo organizado na minha cabeça para conseguir entrar com o pé direito no novo ano. Sinto-me como quando era pequenina e ia à missa e achava que não devia comungar porque não me tinha confessado. Às vezes precisamos de deixar tudo resolvido para trás para conseguir seguir em frente e isso tem sido difícil para mim nos últimos anos porque há sempre alguma coisa, ou alguma pessoa, que me prendem lá atrás, que me puxam sempre por um cabelo e que me dizem ao ouvido que por muito que me esforce nunca conseguirei seguir em frente, que nunca me deixarão esquecer o passado.
Mas este ano, finalmente, tem sido tudo tão diferente.
As pessoas que me puxavam para trás vêm finalmente comigo, aquelas que ficam para trás é porque foi aí que as deixei. O que estava mal na minha vida acabou e olho para Janeiro e só vejo novas e novas etapas, mais assustadoras que nunca mas para as quais, ainda assim, estão tão ansiosa.
E pode ser Porto, Madrid ou até mesmo com toda a gente cá em casa, o que interessa é que este ano, na passagem de ano, vou fechar os olhos e vou-me concentrar em tudo o que quero para mim em 2008. Em tudo o que desejo, em tudo o que vou concretizar, tudo aquilo por que vou lutar. É a primeira vez em Deus sabe quantos anos que não passo o meu ano de mão dada com outra pessoa, a primeira vez em que o primeiro olhar, a primeira palavra do ano não é dirigida a desejar o melhor ano de sempre à pessoa que está comigo, e de preferência que o passe ao meu lado, claro.
Pela primeira vez, o novo ano vai ser a vida nova. Uma vida nova. Desde o princípio.
Como se alguém me dissesse: "Pronto Rita, aí tens uma nova oportunidade. Começa de novo. Erra de novo. Apaixona-te de novo, magoa-te de novo, recupera de novo."
Fica a promessa de que é isso que farei.
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Este texto chama-se "Fica a tua voz" porque já estava decidido, porque fazia parte de algo que eu queria escrever mas que estranhamente não estou a conseguir encaixar em tudo o que escrevi. Talvez não consiga, talvez não deva. Fica para próxima... não o vou mudar porque para mim faz sentido.
28.12.07
Fica a tua voz
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