18.12.07

Queens

No outro dia estava no meio de uma aula e, porque a matéria nesse preciso segundo não devia estar a ser por aí além interessante, estava a despejar os cartões todos da minha carteira e a fazer pouco de mim própria nas fotografias ridículas que ainda tenho. Isto, claro, partilhando o momento com as pessoas sentadas ao meu lado.

Até que uma dessas pessoas, vá lá vamos promovê-lo a colega, decide pegar no primeiro cartão do ISCEM e compará-lo com o segundo. E diz assim o colega: "Bem. Grande evolução!".

E isso deu-me que pensar que realmente olho para uma fotografia e para outra e as diferenças são inúmeras. Nem estou a falar dos caracóis ou ausência deles, daquela querida franjinha que tinha no segundo cartão que só pude fazer porque tinha feito o alisamente mais japonês de sempre e tive o cabelo totalmente liso durante aproximadamente um mês até ele começar a crescer e a franjinha ficar descontrolada com as raízes a encaracolar.

Não, nada disso, estou mesmo a falar de mim própria, da pessoa, de tudo.

Por muito pouco gratificante que o ISCEM possa ter sido em termos intelectuais tenho que admitir que foi a época durante a qual acabei por crescer mais, durante a qual passei da miúda do liceu para a miúda que, afinal de contas e felizmente, ainda sou hoje.

Não que esteja adulta ou me sinta muito crescida. Mesmo que me quisesse sentir assim lembram-me diariamente que ainda ontem estava no berço e que não sei o que são imensas coisas desnecessárias como camisolas que aquecem e que têm nomes estranhíssimos e que entretanto, tão desnecessárias que eram, deixaram de existir.

Mas a verdade é que não há comparação entre a miúda insegura e que, sejamos sinceros e a minha mãe que não me oiça porque para ela sou uma beldade incomparável desde que nasci, era feia que dói.

Eu talvez até nem fosse mas a verdade é que acreditava nisso piamente e com todas as minhas forças e, como sabemos que é esta a minha filosofia de vida, é a atitude que reflecte aquilo que mostramos e a pessoa que se acha a mais feia do mundo acaba por transparecer, inevitavelmente, isso mesmo.

A arte de deixar mostrar coisas totalmente diferentes daquelas que pensamos é uma arte maravilhosa que só vim a dominar anos depois de ser essa miúda de liceu. E a verdade é que ponho grandes culpas no liceu e este texto pode acabar por ser um bocado controverso e espero que não seja mal interpretado pelas minhas poucas leitoras que me acompanharam durantes esses anos de Rainha e que, digo já, não incluo nos comentários que farei mais à frente.

Mas a verdade é que sempre houve tanta pressão na minha cabeça em tudo o que dizia respeito àquele liceu. Sempre tinha sido assim e quando olho para trás e penso no Rainha é isso que me vem à memória. Uma pressão constante em conseguir ser tudo o que era esperado de mim, de uma pessoa como eu.

E, verdade seja dita, correu tudo mal desde o início.

Porque queria mais que tudo ir para o liceu onde andavam os meus 2 irmãos mais novos, que eram até à data e eventualmente serão sempre os meus heróis. Porque era na altura o melhor liceu público do país e eu via nos meus irmãos uma vida espectacular em que tinham óptimas notas e o melhor grupo de amigos de sempre, com os melhores programas, com as melhores viagens e ainda assim a serem sempre espectaculares.

Era tudo o que eu queria e disse muitas vezes mais tarde que penso que a maior decepção da minha vida foi compreender que eles eram a excepção e que não, o meu grupo de amigos não seria assim. Porque mais nenhum é. Porque eles eram, e ainda são, únicos.

E no meu primeiro dia de liceu estava tão em pânico, tão desejosa de conhecer pessoas novas e ser tudo o que sempre tinha sonhado que seria que decidi fazer um brilharete e ir ter com o meu irmão Filipe à "zona do 12º ano", verdadeiros deuses na terra para quem tem 12 anos, e inventar que me tinha esquecido das chaves de casa. Já nem me lembro do que ele me disse mas tenho uma imagem nítida de estar no centro de uma roda de pessoas com mais um metro de altura do que eu e de ele ter respondido qualquer coisa horrível para me despachar, como quem pensa o que é que esta miúda de cabelos no ar está a fazer no meio do meu intervalo se já tenho que a aturar em casa?

E o mais engraçado é que ainda assim me devo ter ido embora, nitidamente de rastos para ainda me lembrar hoje dessa situação mas nem por isso sem esperanças de fazer excelentes amigos. Porque eu nem sequer era envergonhada, tímida, fechada ou introvertida. Juro que não era, mas o liceu fez-me ficar assim.

Eu cheguei ali acabadinha de chegar do CISV e a acreditar piamente que todos os meninos e meninas do mundo podem ser amigos, que somos todos iguais e que não tarda vamos fazer um grupo de amizade para todo o sempre.

Mas é incrível como aquele liceu tinha um poder inacreditável de destruir, de corromper a auto-estima de uma pessoa. Do nada havia uma competição feroz nas comparações dos colégios de onde vinhamos. Claro que ninguém vinha de uma escola preparatória... estamos a falar do Rainha! E as meninas das Escravas recusavam-se a dar-se com as meninas das Oblatas (ou lá como é que se escreve) e os do Bom Sucesso eram estranhos porque o colégio deles não era na Lapa. E na minha cabeça nada daquilo fazia sentido, que diferença é que fazia de onde vinhamos se afinal de contas tinhamos vindo todos parar ao mesmo sítio?

Mas ali, tudo fazia diferença. E quando olho para trás acho que nenhuma miúda acabadinha de sair de um colégio onde só via freiras e claustros, com 12 ou 13 anos de idade, tem que ter força para aguentar toda aquela pressão.

E óbvio que comigo tudo tinha que correr pior do que com as outras pessoas. Era facílimo ser o ídolo da turma quando os cabelos têm a facilidade de crescer para baixo e não para cima, quando não parece que acabaram de chover dentes para dentro da nossa boca em todas as direcções possíveis, quando as nossas mães têm a sensibilidade de compreender que, por ter andado mil anos num colégio de farda não tenho, óbviamente, roupa que conseguisse não repetir (factor contabilizado quase matemáticamente) de 4 em 4 dias e acima de tudo quando, por termos andado num colégio de raparigas que só tinha rapazes há 2 anos e cerca de 3 por turma não achamos que os rapazes são verdadeiros bichos de 7 cabeças e seres totalmente desconhecidos.

Não estou a dizer que tenha sido horrível, que tenha corrido tudo mal ou mesmo que eu fosse infeliz. Nunca fui infeliz. Não digo mesmo que logo no primeiro dia de aulas não tenha ficado numa mesa a meias com quem viria a ser a minha melhor amiga até hoje e, creio eu, para muitos anos que estão para vir.

Só digo que aquela pressão constante que nos fazia sentir que a cabeça podia explodir a qualquer momento é algo de inesquecível. Do nada, os amigos que tinham vindo comigo do colégio eram gozados e eu tinha que escolher entre ficar do lado deles, que ficava, ou dar-me com todas as pessoas espectaculares, que também me dava e sentia-me sempre dividida e sempre a falhar em alguma direcção.

E foi esse sentimento que me acompanhou até ao fim dos meus dias no Rainha, não posso negar. Lá está, eu adorei estar lá e foi muito bom, mas sentia-me sempre a falhar. Nalguma coisa, eu não estava bem. Porque era mais gorda, porque tinha aparelho, porque tinha um cabelo incontrolável, porque não tinha namorados, porque afinal já tinha namorado mas não era quem era suposto ter sido, porque não quis começar a fumar no 9º ano, etc.

E se calhar nunca ninguém me disse estas coisas directamente. Nunca ninguém fez de propósito para me reduzir e para fazer com que a minha pessoa cá dentro ficasse totalmente de rastos, mas era isso que acontecia. Foi isso que aconteceu.

E eu às vezes penso que sou envergonhada hoje em dia, que posso ser um bocadinho insegura nalgumas coisas que dizem respeito a mim própria mas bolas, calma! Eu gosto de mim, tenho-me em determinada consideração e acho que tenho até bastantes qualidades que seria totalmente narcisista estar aqui a enumerar, mas tenho!

Mas quando aqueles anos acabaram não havia, mesmo, maneira de me convencerem disso. Por muito que eu mostrasse, que eu tentasse, que eu acompanhasse toda a gente e mesmo os bons amigos que lá fiz, por dentro eu sempre estive um caco. Sempre.

E foi preciso aqueles malditos anos terem chegado a um fim, mesmo com muito choro e com vigílias nocturnas e greves porque nos recusávamos a que fechassem o nosso Rainha (sim, porque o Rainha deixou de existir naquele ano), para eu perceber que, afinal de contas, e quem diria?, eu até sou uma pessoa normal.

Foi preciso mudar para uma escola no fim do mundo para fazer o 12º com 2 amigas para ver que de facto existem mais conversas nos intervalos sem ser a vida das pessoas que me rodeiam, o que vestem, o que fazem e onde passaram a última 6ª feira (na altura, só se saía à 6ª-feira). Foi preciso mudar de ares, de vida, de ambiente para perceber que sim, sou uma pessoa normalíssima com imenso para dar e que não, ninguém no mundo tem o direito de me reduzir a menos do que sou.

Por várias outras razões que evidentemente eu não estou a enumerar aqui, até porque são fases que me custam recordar, o meu último ano no Rainha traumatizou-me gravemente. Foi quando acordei para a vida e compreendi o poder absolutamente espectacular que temos, apesar de apenas adolescentes, para nos magoarmos uns aos outros. E não me estou a fazer de vítima, também magoei muito. Saí de lá com a visão mais pessimista possível sobre a vida, sobre o futuro e sobre mim. Passei por uma fase tão, tão dolorosa à qual, ainda por cima, tive que acrescentar a decepção de não poder desabafar com as minhas amigas porque a elas, pura e simplesmente, nunca lhes interessou perguntar como é que eu estava. Porque as razões pelas quais eu estava como estava implicavam compreender que existiam mais pessoas naquele liceu além do nosso grupinho fechado, implicavam admitir que eu tinha mais amigos no mundo e que elas tinham razão em não se dar com mais ninguém porque afinal esses amigos só servem para decepcionar, e isso era evidente, não se via logo nas roupas deles?

Não interessa. O que interessa é que com o tempo comecei a reconstruir-me do zero, com muita ajuda do meu namorado na altura que era, de resto, a única a pessoa em que eu me podia/queria apoiar e que eventualmente fui capaz de começar a ver a vida com outros olhos. (Destaque para este namorado que, como está escrito já em centenas de posts deste blog, é uma pessoa a quem nunca conseguirei dar valor suficiente na minha vida. E não escrevo isto por ser amorosa e querer impressionar, escrevo só mesmo porque sei que ele vai ler isto e portanto é mesmo de propósito).

Tentando resumir, não era de todo o objectivo do meu texto ter escrito isto tudo. Tinha um textinho muito bem organizado na minha cabeça sobre o meu jantar de 6ª-feira só que entretanto perdi-me e acabei por fazer uma crítica para lá de cruel a um liceu que eu, juro por tudo, ainda me tento convencer a mim própria que adorei e que continuo a defender com unhas e dentes.

A verdade é que tive um grupo de amigas durante todos esses anos. E adoro-as, e adorei estar com elas esta 6ª-feira e espero que estes jantares se repitam, aliás já disse que o próximo é em minha casa. E eu sei que elas não fazem por mal, eu sei que não é de propósito e eu sei que elas nem sonham mas continua a ser mais forte que eu estar ali à mesa e ver em cada pergunta um juízo, em cada comentário uma crítica, em cada olhar uma facada!

Calma, não digo isto de toda a gente mas já chega de fingir e a verdade é que saí de casa a sentir-me giríssima e dei por mim, estupidamente, a meio do jantar a não ir à casa-de-banho porque a minha barriga se ia notar imenso com aquele vestido! Onde, meu Deus, onde é que eu tenho uma barriga que se note?

Vou acabar com este texto antes que ofenda quem quer que seja. Eu adorei o jantar. Houve realmente pessoas de quem eu estava morta de saudades, outras que até acabo por ver frequentemente e outras que espero começar agora a ver muito mais. Mas sim, senti-me, por 3 segundos que fosse, outra vez a pessoa mais horrível do mundo. E claro, mas isto era claro como água que só me iria acontecer A MIM, o meu cartão multibanco tinha que falhar e eu tinha que pedir que alguém me pagasse o jantar e eu tinha que ficar com aquela cara de tonta a fazer contas à vida a pensar se teria abusado assim tanto nos presentes de Natal (não abusei, era do banco e já fiz uma reclamação por me ter acontecido a mesma coisa na 6ª-feira e no Sábado e, como diz certa colega, ou me respondem em 48 horas ou faço uma escandaleira).

E claro que não quis ir sair, claro que quis ir para casa enterrar-me no sofá a ver televisão e esperar que a minha mãe chegasse. Claro que ela chegou, olhou para mim, abraçou-me e disse que estava tudo bem, que já sabia que eu ia ficar assim, que ainda bem que fui à mesma. E adormeci a sonhar com o meu jantar do dia seguinte para o qual poderia até ter ido de pijama que sei que não teria feito diferença.

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