7.12.07

Jacarandás

Vou ter saudades de Santos.
Mesmo em dias como estes em que me sinto a cair para o lado de doente e está mais frio do que eu gostaria que estivesse, sei que vou ter saudades de trabalhar neste sítio maravilhoso.
Vou ter saudades de milhões de coisas.

A começar pelos jacarandás do jardim mesmo à frente do escritório, que estranhamente me continuam, passados tantos anos, a trazer recordações inesquecíveis de namoricos sem igual. E seria inútil tentar mudar um facto tão óbvio, porque há momentos únicos, primeiros beijos únicos, que não devem nunca ser esquecidos.
Tudo bem que era um beijo proibido, tudo bem que eu só tinha 17 anos (ou mesmo 16!), mas aquele banco vai ser sempre aquele banco e o sorriso com que eu olho para ele, até porque passo por ele todos os dias, há de ser sempre o mesmo.
E é-me indiferente que nunca mais me volte a sentar lá, que nunca mais dê um beijo sob os jacarandás, até porque são das árvores mais raras do mundo e a probabilidade de me voltar encontrar debaixo de um com alguém é muito pequena. É-me indiferente que esse beijo nunca se repita. É indiferente. Porque há recordações que valem por mil momentos presentes e futuros.
Vou ter saudades de me lembrar disso.

Acho que acima de tudo vou ter saudades dos almoços.
Fosse uma, duas ou três vezes por semana, há sempre alguém aqui ao lado com quem combinar um almoço. Na Lapa, em Santos ou mesmo nas Amoreiras, ou não fosse as Amoreiras o melhor centro comercial de Lisboa desde sempre e para sempre, vou ter saudades do quão fácil era passar uma hora tão bem acompanhada que parecia que passavam anos luz entre as manhãs e as tardes sentada nesta cadeira encarnada.
Vou morrer de saudades dessas pessoas todas que felizmente conseguia ver tão frequentemente e que inevitavelmente vou passar a ver muito menos. Vou passar a ser aquela pessoa de quem dizem: "A Rita! Não a vejo há 3 semanas, ela trabalha tão longe!".

Vou ter saudades, além dos almoços com toda a gente que por aqui anda, de tudo o que eu fazia durante as horas almoço que passava sozinha.
De ir para o último andar do prédio estender-me em duas cadeiras e adormecer ao Sol, de poder atravessar a linha de comboio e sentar-me com os pés a dar a dar para o rio Tejo e perder-me na minha imaginação, de poder apanhar o eléctrico e ir até à baixa passear e comer castanhas assadas.
Até vou ter saudades da Eva! Estranhamente a depiladora de toda a gente que eu conheço que faça a depilação em Lisboa. Que apesar de ser bruta, rápida e uma verdadeira agência Lusa de todas as minhas amigas e ainda das amigas delas, foi também a única pessoa que eu conheço que foi capaz de me dizer: "Ai Rita tu vê-se mesmo que ainda não arranjaste namorado novo! Andas cada vez mais gorda rapariga tu arranja-me um homem rapidamente! Eu cá quando o meu marido me deixou por outra deixei de comer e fiquei um espeto, obriguei-o a voltar para mim só para lhe dar um pontapé no cú!".

E vou ter saudades da proximidade. Proximidade de casa, do centro de Lisboa, de ir almoçar com o meu pai, dos almoços com a minha mãe onde quer que seja, de poder fazer comprinhas à hora de almoço, do perto que estou das aulas em que podia chegar às 6h10 e ter lugar na 3ª fila!
Agora já sei que por não querer ir para a última fila porque senão desconcentro-me e viajo interminavelmente pelo mundo fascinante que vive dentro da minha cabeça, vou ter que ir para as filas da frente e passar pela maior marrona de todos os tempos.

Vou ter saudades de andar de mota.
Bem sei que a minha mota está parada há dois meses e que tenho sido a maior preguiçosa do mundo mas a verdade é que agora que vou voltar a poder andar nela, não me vai servir de muito para ir para tão longe todos os dias.
Vou ter saudades de não ser dependente do carro. Como nunca fui, como sempre me recusei a ser, como só comecei a ser desde que começaram as aulas e apenas quando há aulas. Saudades de me sentar no comboio a ler um livro ao final do dia e de estar em casa passados 10 minutos. Saudades de todas as pessoas que, por isso mesmo, sempre se cruzaram por mim ao longo dos meus dias e que vão deixar de o fazer porque vou deixar de andar a pé na rua.

Pensando bem, até vou ter saudades de algumas coisas neste escritório. Os mimos todos que nunca me faltaram. O meu computador rapidíssimo e os meus phones enormes e confortáveis com os quais oiço tudo o que quero e quando quero sem ter que dar explicações a ninguém. A minha cadeira confortável e a liberdade que é poder ter uma sala só para mim.
Vou ter saudades do tempo que tenho para as minhas divagações constantes em que me perco de mim própria e quando me reencontro já escrevi centenas de páginas seguidas cheias de nada, ou cheias de mim, não sei.
Saudades deste blog que vai inevitavelmente ser um bocadinho abandonado porque não vou ter tempo sequer para pensar no que gostaria de escrever.

Vou ter saudades de tanta coisa... Quando olhar para trás, para este ano e meio aqui em Santos, vão ser mais as recordações boas que as más.
Mas quando olhar para a frente não vou ter pena de nada disto... Tenho a certeza que o futuro será ainda melhor. Não trocava o que aí vem por nenhuma destas coisas das quais vou morrer de saudades.
E, afinal de contas, em Oeiras também vai haver com certeza muitos almocinhos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Oh mulher tanta saudades mas para onde vais tu? Mais longe que alverca não pode ser. Lol!
Mas digo, se for uma localidade tão fascinante como Alverca city prepara.te pq vais ter mts saudds disso tudo q acabast de relatar.
Almoços com pessoas amigas é para esquecer, tens mm de te fazer amiga dos coleguitas de trabalho, almoças c eles, participas ou simplesmente ouves conversas das quais o teu interesse é nulo, tais como, os petiscos da mãezinha, a nova piada do filhote, enfeites e presentes de natal. Basicamente roda sempre a volta do mesmo. É mto bom!lol
Quanto a compras, só se for no Jumbo, Modelo ou Lidel pq lojas é mentira.
Jacarandás... querida só mesmo no fundo do pc.

Tas a ver Ritinha, para onde quer que vás não deve ser tão mau como o meu novo mundo, portanto, sp que te sentires em baixo e com saudades dos Jacarandás, pensa em mim e vais ver que te sentes melhor... =P

Beijinhooooo

P.s: Responde à primeira pergunda, "Para onde vais?" que agora fiquei curiosa.