Maldito mosquito. Acabou de me picar. E agora outra vez.
Não costumo ser picada por mosquitos. É daquelas coisas que me definem, daquelas coisas que dizemos em público. "Não costumo ser picada, tenho o sangue azedo."
O que é que isto significa? Sangue azedo? Em primeiro lugar nem sei se existe tal coisa, sangue mais azedo, mais doce, mais amargo. Em segundo lugar, mesmo que exista, eu não tenho sangue azedo de certeza. Sou tudo menos azeda.
Quanto muito posso fingir, muitas vezes, ser azeda. Mas mesmo assim acho que nem nisso tenho sucesso.
Sou tudo menos azeda, tudo menos fria. Se o fosse não teria tanta coisa para escrever, não sentiria tanto tudo o que me rodeia. Não teria paciência para interpretar de tantas maneiras quantas possíveis (ou mesmo impossíveis!) tudo o que se passa à minha volta. Mesmo o que não me diz respeito.
(...)
É assim que eu sou.
Sou eu.
Gosto de me definir.
Sou curiosa e não sou picada por mosquitos.
Ultimamente tenho sorrido. Tenho pensado mais do que o normal, tenho sentido mais do que em qualquer tempo dos últimos anos e tenho escrito absurdamente mais do que em qualquer outra altura da minha vida. E isso faz-me sorrir. Faz-me bem, sinto-me bem.
Tenho-me encontrado.
E é engraçado que tenho encontrado esta pessoa sorridente que, uns dias melhor outros dias pior, ainda consegue chegar ao fim do dia feliz.
É bom saber que consigo respirar, viver, seguir com o meu dia-a-dia sem ter que me apoiar incondicionalmente noutra pessoa. Sem pensar nessa dependência que foi o meu sustento durante tantos anos.
Sei que foi essa dependência que arruinou as minhas relações e quando comecei essas relações sabia que era isso que as iria arruinar. Mas ainda assim é engraçado eu admití-lo porque sei que é um erro que vou voltar a cometer.
Sexta-feira fui jantar com umas amigas. Daquelas com que se consegue conversar sem se ter medo do que elas pensam. Pelo menos algumas delas. Uma delas sabe sentir o que eu sinto e sabe ter paciência para me ouvir falar. Somos muito parecidas, adoro desabafar com ela.
Falávamos sobre este assunto, de mudarmos quando realmente amamos alguém.
Ela concorda comigo e foi bom ver a perspectiva de alguém que está realmente dentro de uma relação e que tem noção dos erros que provavelmente está mesmo a cometer.
Ela sabe que tem sido chata, sabe que é dependente do namorado, sabe que sem ele ficaria sem nada. Ainda assim, é assim mesmo que ela é. E porque não?
Afinal de contas eu sei ser independente. Se havia, porventura, necessidade de provar isso a mim própria, está provado.
Mas também sei que no dia em que voltar a amar alguém loucamente, nesse dia vou voluntáriamente entregar-me a essa pessoa. Porque é assim que eu sou. Sou uma namorada dedicada e para mim só faz sentido amar com essa dedicação, com essa expressão perfeita de paixão profunda.
Até agora foi isso que arruinou as minhas relações. Seja porque essa paixão não foi correspondida e eu me perdi de mim própria ou seja porque foi correspondida de mais e ele se perdeu de ele próprio, de nós, e de mim.
Mas acredito que quando chegar a pessoa certa isso vai resultar. E aí já vamos ser maduros o suficiente para só exigir do outro a dedicação que ele estiver disposto a dar e para só darmos ao outro aquilo de nós que for para dar. Saberemos guardar o que é só nosso, só para nós.
Estou ansiosa por esse dia, mas sei que este não é o momento certo para que ele chegue.
Neste momento a prioridade sou eu, tenho que ser eu.
Neste momento quero continuar a sorrir como tenho sorrido. A sorrir para mim, com uma cumplicidade própria de quem se descobre e de quem compreende finalmente que ainda é possível ser feliz só com o mundo inteiro.
E digo "só" porque o mundo inteiro não costuma ser suficiente quando amo alguém. Porque quando amo alguém esqueço o mundo e tudo o que está lá dentro para essa pessoa passar a ser o meu universo.
Mas hoje quero-me esquecer do universo e centrar-me no mundo. Em tudo o que há no mundo. Em tudo o que me falta descobrir, aprender, conquistar.
Quero saber todos os países, quero conhecer todas as músicas. Quero saber como são as pessoas, quero compreendê-las, quero que me conheçam. Não quero ter medo do que possam pensar de mim.
Quero nadar! Quero ir ao fundo do mar e quero-me deitar na areia e sentir o sol a aquecer-me. Quero comer gelados.
Quero conquistar amizades novas e quero fazer com que as amizades que já tenho sejam as mais fortes do mundo, eternas. Quero-me sentir bem com as minhas amigas. Quero saber que posso contar com elas, quero que elas saibam que podem sempre contar comigo.
Gostava de ter um amigo, um ou mais. Não tenho amigos rapazes, nunca tive.
Tive um mas deixou de me falar. Tenho saudades dele.
Tenho saudades mas acho que é porque era o único amigo que tive que nunca foi meu namorado. Gostava de saber o que é confiar num rapaz, estar à vontade, combinar um café, sem a pressão do romance, do olhar, da postura, da roupa.
(...)
Posso sempre começar por escrever um texto sobre mim, tentando-me definir, mas a verdade é que quando me começo a cansar e paro para pensar no que já escrevi, só me confundi.
Tenho tantas fatias que se as juntasse a todas acho que faria mais do que uma só tarte. Sim porque eu seria uma tarte, não seria um bolo.
Uma tarte sorridente, curiosa e que não é picada por mosquitos.
Que chega a mais um Domingo à noite a achar que a Segunda-feira seguinte é o primeiro dia do resto da sua vida. Mais uma esperança numa dieta, mais uma vontade de acordar a horas, mais um bocadinho de força para trabalhar.
E, como sempre, com mais uma fatia de mim sempre à procura daquele momento mágico que, seja ele qual for porque nem eu sei muito bem, vai concretizar um sonho qualquer, ou pelo menos uma fatia de um sonho qualquer.
16.7.07
Sangue Azedo?
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
2 comentários:
Tive a ler este teu artigo e parece que descreves quase tudo o que sinto. Tenho tido relaçoes duradoras, mas essa dependencia que falas esta sempre presente e nao me deixa ser totalmente feliz. Porque esqueço o que esta a volta e concentro-me na outra pessoa. Todas as atitudes que eu tenho, antes de tomar qualquer decisao, inconscientemente penso na outra pessoa antes de mim.. E tenho de ser consciente para mudar isto. Mas sinceramente, nao gosto de viver assim.. Quero aprender a saber viver com uma pessoa.. caminha lado a lado, mas sem a necessidade de o teu a meu lado.. Tu que pelos visto ja conseguis-te alcançar essa independencia, como o fizes-te? *
Querido/a anónimo/a:
De facto, não posso dizer que tenha alcançado essa independência porque ainda não voltei a ter nenhuma relação desde a última, que falo neste texto. E, pelo que me parece, a independência de que falas implica conseguir alcançá-la mesmo caminhando ao lado dessa outra pessoa!
A verdade é que, agora que já consigo olhar com alguma distância, acho que é mesmo uma característica que me define. Numa relação, não gosto de meias medidas. Dou tudo de mim, o que tenho e o que não tenho, viro-me do avesso por outra pessoa. E penso, sinceramente, que o segredo passa por encontrar a pessoa que saiba dar valor a isso e fazer o mesmo que nós ...parece tão simples, não parece?
Até lá, procuro não me desvalorizar a mim própria com relações que sei que não têm futuro nem com momentos sem valor sentimental, porque não é assim que eu sou!
Acho que pensar nos outros antes de persarmos em nós próprios não tem nada de mal, só mostra altruísmo... temos é que saber equilibrar e manter sempre aquilo que precisamos para a nossa própria sobrevivência. E esperar que a pessoa em quem pensamos antes de pensarmos em nós próprios também pense em nós antes de pensar nela. Senão... é porque provavelmente não é a pessoa certa!
Desculpa a demora na resposta.
Bjs Rita
Enviar um comentário