26.7.07

Uma surpresa boa

Hoje em dia, infelizmente, é mais frequente repararmos nas pessoas pelo lado negativo que pelo lado positivo. Pergunto-me porque será.
Porque é que o lado negativo nos chama mais a atenção? E porque é que nos custa, tantas vezes, admitir que reparamos tanto nas qualidades quanto nos defeitos? Ou não reparamos?

Se calhar contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que chamei a atenção de alguém com quem estou para a roupa de uma miúda qualquer gira que passa por nós, que não tenha sido para dizer mal.
É mais forte que nós, é o instinto feminino. Se é gira, se tem uma idade minimamente semelhante à nossa, se podia até ser nossa amiga se a conhecessemos, então é concorrência. Vamos eliminar. Vamos desvalorizar, vamos dizer mal.

É uma atitude snob e irritante que tenho vindo a tentar combater desde sempre. Não que não seja muitas vezes a primeira a "atirar a primeira pedra" mas tenho vindo a tentar ser mais tolerante, a tentar discriminar menos. Até porque acho que essa atitude, quando lhe ganhamos o gosto, se começa a reflectir em tudo na vida. Nas nossas relações, na nossa forma de encarar o que nos rodeia, na maneira de vermos as pessoas à nossa volta.

Mas diria que não, que não sou uma pessoa, pelo menos hoje em dia, que tenha o hábito de dizer mal das que a rodeiam. Claro que muita gente poderia chegar aqui e dizer "ah isso é mentira, ainda no outro dia disseste isto, isto e isto." Claro, é possível. Ainda assim, não me parece que seja um hábito.
Por falar em hábitos, até me parece mais habitual ter a atitude de advogada do diabo e, quando oiço falar mal de alguém, mesmo que seja do empregado do restaurante, por-me logo à defesa dessa pessoa.
Consigo ser verdadeiramente irritante, admito.
Ainda no Verão passado passeava pela Terceira, nos Açores claro está, com o meu namorado na altura, quando ele diz de repente: "olha-me para aquela gorda!".
Fiquei parva, na altura. Nem ele nem eu uma elegância de casal, qual a minha surpresa quando oiço um comentário destes que, mesmo sem malícia, teria deixado a miúda de rastos se o tivesse ouvido? Pus-me no lugar dela, foi inevitáel, e imaginei que ouvia um carro passar enquanto que alguém me dizia "ganda gorda!!!".
Não consegui explicar este ponto de vista ao André. Achou ridículo. Foi uma daquelas discussões sérias que começou com uma razão parva.

No entanto, aquilo de que eu queria verdadeiramente falar, e já me desviei seriamente do assunto, era daquilo que estamos, ou não, dispostos a fazer por quem não conhecemos de lado nenhum.
Se no que toca a comentar temos tendência a sermos negativos e a discriminar, ainda que inconscientemente, no que toca a ajudar somos piores: não ajudamos.

Não estou a falar dos sem-abrigo, do voluntariado, nada disso. Estou a falar de pequenos gestos vindos de pessoas que não conhecemos de lado nenhum, de ajudar alguém só porque sabemos que essa ajuda pode dar jeito, mesmo que não recebamos nada em troca.

E como admito que é tão raro sermos impressionados pela positiva por pessoas que não conhecemos, acho essencial dar tanta importância a esses pormenores bons que acontecem no dia-a-dia como dou aos maus, senão mais ainda, o que seria mesmo ideal.

O que aconteceu foi o seguinte:
No preciso momento em que me candidatei para a Pós-Graduação, encontrava-me eu em estado de histeria total (que estranhamente ainda não passou) e logo depois de ligar à minha mãe a agradecer por ter a melhor mãe do mundo só me passaram pela cabeça duas pessoas a quem ligar. Em primeiro lugar, à Benny. Porquê? Também não sei. Estava no ISEG e para mim ISEG é Benny, fez sentido na altura e ela ficou radiante por mim. Foi óptimo porque fiquei a saber que ela também vai começar o Mestrado e se tudo correr bem com as duas fazemos juntas o 2º ano de Mestrado.
O segundo telefonema só podia ter sido para a Verinha. Porquê? Desta vez já tenho resposta, porque sim! Porque é aquela pessoa que eu sabia que ia compreender a minha felicidade, que ia ficar radiante com a ideia, que me ia apoiar 200% por saber o bem que isto vai ser para o meu futuro e, sobretudo, o bem que me faz à minha cabeça-não-satisfeita-com-o-grau-de-exigência-do-curso-que-tirou-apesar-de-ter-adorado.

Já no dia seguinte, estava eu a trabalhar de manhã bem cedo quando a Verinha me liga e diz: "Ri! Tenho uma colega que fez a mesma Pós-Graduação que tu vais fazer, chama-se Sónia, vou-lhe passar o telefone!".
Antes de mais adoro que me tratem por Ri. Não sei porquê. Não me lembro exactamente, como é lógico, se nesse momento a Vera me tratou por Ri ou não, mas deduzo que sim porque trata sempre!
Ela passa-me o telefone e eu de pé atrás, porque não sou a melhor pessoa do mundo a conhecer pessoas novas. E só não sou porque sou meia envergonhada e porque não me aparecem pessoas novas à frente todos os dias, porque adoro conhecer pessoas novas. Do nada oiço uma miúda a falar a mil à hora que me diz algo do género: "Estou? Rita? Olá, sou a Sónia, amiga da Verinha aqui na Lusitânia. Olha queria-te dizer que também fiz a Pós-Graduação em Marketing Management e que adorei, vais adorar de certeza! Eu tirei o curso de Economia por isso aprendi imensas coisas novas que tu de certeza já estudaste no teu curso. Ainda assim acho que vais gostar imenso, eu estou agora a acabar o segundo ano de Mestrado, que é bem mais difícil, mas adorei tudo!" - Faladora a Sónia... e eu em êxtase de felicidade!
Perguntei-lhe como é que ela tinha conseguido passar para o 2º ano de Mestrado, se era por notas, como era... ao que ela me responde que sim, é consoante a média mas que ela tem a certeza que eu vou ter óptimas notas e que não vou ter problemas nenhuns!

Volto a lembrar que a Sónia nunca me tinha visto na vida, nem mais gorda nem mais magra (sim porque é uma característica minha - nunca ter o mesmo peso duas vezes seguidas que alguém me vê) - e no entanto ainda se oferece para me dar todo o material que tem em casa que eu possa precisar: trabalhos, aulas, testes... tudo!

Acho isto incrível. Juro que acho. Acho que já não há pessoas assim. É tão difícil, do nada, depararmo-nos com pessoas que são espectaculares só porque sim, porque o são, sem nunca as termos conhecido, sem nunca nos terem pedido nada em troca, que não têm, à partida, nada a ganhar.
Marcou-me, admito.

No dia seguinte fui almoçar com a Verinha e ela lá me deu a pen que tem, realmente, coisas que me vão dar imenso jeito.
(Um parentesis para a pen da Vera, porque quem trabalha na Lusitânia tem direito a uma pen, mas não é a uma pen qualquer... é uma pen de pele!)

Moral da história, muito obrigado à Sónia!
Não só por me ter, como é óbvio, dado a matéria da Pós-Graduação, mas por muito, muito mais.
Por se ter preocupado, por se ter mexido, por ter querido ajudar, por me ter dito palavras tão simpáticas, por ter ido além dessas palavras e, sobretudo, por ainda se mostrar disponível para me continuar a ajudar no que eu precisar.
Enfim, obrigado por mostrar que ainda existem pessoas assim! Porque fazem falta, a sério que fazem!

1 comentário:

Anónimo disse...

Querida Rita,
É com grande satisfação que me vejo aparecer no teu blog... confesso não ser merecedora de tão rasgados elogios... contudo, sagazmente digna do adjectivo "faladora"!
A tua generosidade de sentimentos para com as pessoas, a avaliar pela forma como escreves (sim, tenho andado por aqui a "ler-te"!) é que transforma estas pequenas coisas em algo que consideras tão importante.
Entendo-te… não custa nada facilitar os acessos aos outros naqueles que são os seus objectivos, uma vez que só assim serão recíprocos.
Desejo-te a maior sorte para a Pós-Graduação! Melhor: para a TUA Pós-Graduação! Fará parte de ti e dos dias que se avizinham.
Espero poder ir partilhando alguns dos vários momentos contigo, a nível académico e, espero, profissional!...
Um beijinho,
Sónia (amiga da Verinha, da Lusitania)