16.7.07

O 1º dia do resto da minha vida

Hoje é, de facto, o primeiro dia do resto da minha vida.
Todos são, claro, mas há sempre aqueles aos quais damos mais importância.
Hoje é um dia desses.
Chega de me afogar nos meus próprios vícios. Chega de arranjar desculpas para afundar a minha própria infelicidade.
Chega de me considerar infeliz por razões que, já eu sei muito bem, nem sequer me faria felizes se existissem.
Quando adormeci, ontem à noite, já sabia que ontem seria o último dia do meu passado e que esta manhã iria acordar uma pessoa nova.
Como é habitual nestes meus dias cheios de resoluções, não faltam desculpas perfeitas para eu adiar o meu primeiro dia por mais uma semaninha ou duas. Mas hoje não, hoje vou ter força.
Chove a potes e estamos a 16 de Julho, tenho dentista, não há internet no escritório.
Nada disso me vai demover.
Sorrio.
Concentro-me nas partes boas.
Ainda não fiz asneiras hoje. Ainda não são sequer 9h30 mas já é um começo. Podia ter comprado um bolo à chegada a Santos e não comprei. Podia ter adormecido e não adormeci. Há tantas coisas nas quais falho logo pela manhã e que me tiram a motivação para ter força o resto do dia. São coisas que afectam o meu equilíbrio.
Tenho obrigação de as manter, tenho obrigação de conseguir seguir determinados passos que são essenciais para o meu bem-estar psicológico.
Como se se tratasse de uma pessoa doida ou esquizofrénica, preciso de determinadas rotinas na minha vida. Porque são mais que rotinas, são alicerces.
Porque falhar incomoda-me tanto que sinto que, se já falhei, mais vale falhar o resto do dia porque agora já é tarde de mais para sentir que foi um dia positivo.
Talvez isto se resuma ao facto de ser exigente de mais comigo própria.
Gostava de conseguir cometer um erro e pensar “pronto, fiz asneira mas agora não repito”. Não consigo. Cometi um erro e estraguei o dia, a semana, talvez até o mês. Qualquer esforço para por tudo bem é inútil e mais vale desistir de tentar ser perfeita. Pelo menos até ao próximo primeiro dia.
E hoje é um desses dias.
Novas resoluções. Novas forças. Novas vontades. Novos objectivos. Novas metas. Tantas coisas novas mas que nada têm de novo.
A luta continua a ser a mesma.
Gostar de mim.
Saber perdoar-me. Saber errar.
Não perder a força.
Encontrar um equilíbrio bom que entre no meu sistema sem eu ter que o impor a mim própria.
Ter força para lutar por todos os pormenores que me fazem sentir melhor com o mundo. Ter atenção aos detalhes.
Não deixar para trás pequenos gestos dos quais mais tarde me vou arrepender.
Ter sempre aquela motivação para ir um bocadinho, sempre um bocadinho mais longe.
Surpreender-me. Não pensar em surpreender os outros. Surpreender-me.
Chegar ao fim dia, à cama, ansiosa por uma boa noite de sono e conseguir pensar: descansa Rita, hoje mereces.

E tudo isto sem extremismos. Não, os extremismos são o que há de mais perigoso.
Para mim seria mais fácil encontrar uma solução extremista.
Refeições de 2h30 em 2h30 com tolerância de 20 minutos; cerca de 150 calorias por refeição; ginástica 4 vezes por semana no mínimo; 30 minutos de leitura por dia; ler a Visão semanalmente; ler a Saber Viver mensalmente; ler o site do Diário de Notícias e do Meios & Publicidade diariamente; decorar os países da Europa e os distritos de Portugal; fazer uma lista dos livros que quero ler e comprá-los; estudar o Mercator no mínimo 3 horas por semana até começar a Pós-Graduação.
As regras são a parte mais fácil.
Se as impusesse a mim própria não tenho dúvida que as conseguiria cumprir.
Até ao dia. É sempre até ao dia.
Depois a dada altura algum factor externo iria impor uma quebra na minha rotina meticulosamente preparada e eu iria parar, olhar para mim e ver o quão infeliz eu sou.
Sem tempo para pensar, para sonhar, para os meus devaneios tão característicos.

E é por isso que é tão importante que eu encontre o meu equilíbrio. Porque sei que me sinto melhor num dos dois extremos: no extremo da perfeição ou no extremo do caos.
Porque sei que ambos me fazem mal.
E a luta mais difícil é manter-me no equilíbrio, não me deixar cair para nenhum lado.
Saber ser eu própria mas saber errar. Saber desculpar-me e saber abrir excepções. Saber ter força para parar de fazer asneiras e saber que todos os dias são bons para começar de novo.
Encontrar-me nesse equilíbrio, redescobrir-me. Aprender esse caminho tão sinuoso como uma lâmina de uma faca e conseguir, eventualmente, percorrê-lo de olhos fechados.

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